Skillet - São Paulo

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A cidade de São Paulo estava com um começo de noite agradável naquela sexta-feira, 24 de outubro. Com seus 22°C marcados nos relógios urbanos, a capital paulista já dava indícios de sua vida noturna vibrante conforme o céu tomava a sua forma poente e transformava o dia em noite. 


Como prova desse ecossistema, os espaços que circundavam a Audio Club, nos arredores do metrô Barra Funda, se encontravam com uma movimentação intensa. E não era apenas pelo entra e sai de alunos da Uninove. Já na Avenida Francisco Matarazzo, havia um vaivém de pessoas em seus trajes escuros que combinava com o tom da noite. Quando era possível de se encontrar um espaço vazio, o que era raro, percebia-se que cada muro e portão se encontrava enfeitado com varais improvisados cheios de camisetas, casacos, bandanas, copos e outros tipos de souvenir do Skillet, banda que se apresentaria na referida casa de show dali a algumas horas.


Já dentro das dependências da Audio Club, o ambiente, perto das 21h, já se mostrava generosamente ocupado em todos os seus dois setores, sendo pista e mezanino. Tamanho era o montante de pessoas que, além de tornar a ida ao banheiro uma tarefa árdua e penosa, as conversas paralelas que dele se formavam deixavam a música ambiente praticamente inaudível.


De certa forma, podia até parecer que a plateia estava paciente e comportada, mas bastava um mínimo de movimentação no palco para que se entoasse um urro uníssono e figuras praticamente onipresentes fossem ovacionadas gratuitamente. Esse ato já foi capaz de dar uma pequena amostrado tamanho da expectativa, como também o controle da ansiedade em relação à velocidade do tempo por parte do público.


Quando os relógios marcaram 21h20, um coro enérgico rompeu o torpor com gritos intensos pedindo pelo início do show. Enquanto isso, as caixas de som, ao reproduzir Devour, single do Shinedown, levou o público a um primeiro momento de euforia, com a música sendo cantada em uma só voz. O mesmo ato se repetiu com Animal I Have Become, single do Three Days Grace.


Com a presença dos técnicos de som no palco dando algum tipo de atração à plateia e uma espécie de estratégia para sentir o tempo passar, a plateia saldava com intensidade os responsáveis pela afinação tanto da bateria quanto da guitarra. Mas foi com Numb, single do Linkin Park, pouco antes do início do show, que houve uma espécie de ponto alto do aquecimento ao espetáculo que se anunciava.


Foi então que, a partir da contagem regressiva feita pelo próprio público, as luzes se apagaram com o relógio marcando exatamente 22h. O palco se acendeu. Sem qualquer tipo de cerimônia, o Skillet entrou incendiando o espaço com a introdução groovada e marcante de Surviving The Game. Desfilando simpatia em meio à intensidade de seu canto, John Cooper conseguiu formar olas e puxar coros uníssonos do público durante o refrão. Em relação à baterista Jen Ledger, sua agilidade no instrumento mostrava ânimo e entrega a cada golpe.


A trotante Invincible foi recebida da mesma forma que a anterior. Aos gritos e cantada com a devida intensidade pelo público, a faixa ainda contou com palmas no mesmo compasso do ritmo trazido pela bateria. Ainda assim, foi durante a introdução de Rise que, pela primeira vez na noite, o público formou uma única massa pulsante.


Com Awake And Alive, porém, o público foi responsável por entoar coros ovacionantes tão agressivos que mal permitiam que os próprios instrumentos fossem nitidamente audíveis. Foi durante a introdução de Sick Of It que o público teve a primeira verdadeira surpresa. Ao invés de seguir o script da própria canção, Cooper a introduziu cantando o amanhecer de Livin’ On A Prayer, do Bon Jovi. Como parte do teatro do show, foi também durante a execução da faixa que o vocalista tomou o microfone para si e fez breves discursos em tom de ordem e protesto.


Tendo Ash In The Wind e Never Surrender como as duas únicas músicas de respiro, o show retomou a adrenalina com Whispers In The Dark. Foi durante a faixa que, de fato, Cooper falou com o público pela primeira vez. “I can hear myself singing with you all screaming… You’re too loud, and I loved!”, confessou. “I think I’ll think about come here more often!”, provocou ele por fim.


Outros picos de intensidade se deram com Hero, introduzida de forma incandescente, e Psycho In My Head. Na faixa, o público se apresentou por entre palmas, mãos ao alto formando os chifres de rock e punhos cerrados colocados ao alto em pose de ordem. Com sabedoria, Cooper aproveitou a intensidade da plateia e o incentivou a pular como se fosse um único corpo, fazendo o chão da Audio tremer.


Foi com Comatose, a faixa que encerrava a primeira parte do show e dava passagem ao bis, que houve o verdadeiro ponto alto com uma participação tão intensa do público que fez com que a Audio ruísse. O espaço se apagou, mas logo se acendeu novamente, sem nem tempo para que o público pedisse o retorno do grupo ao palco.


Com Cooper vestindo a camiseta da Seleção Brasileira, The Resistance foi anunciada. Público entrou em um verdadeiro colapso, pulando, gritando, cantando e levantando os punhos cerrados em pose de ordem. Não havia sintonia comportamental, mas, naquele momento, a energia foi incendiária.


Por entre gritos ensurdecedores da plateia, e os golpes sequenciais de Jen no bumbo fazendo as grades tremerem, o primeiro show do Skillet em 10 anos na cidade de São Paulo chegava ao fim na marca das 23h21. Com as luzes tremendo, pulsando e se revezando de maneira esquizofrênica em relação aos lugares de foco, o grupo, enfim, deixou o palco de uma Audio Club com ingressos esgotados.


Pode até parecer que o show foi um tanto burocrático. Sem uma novidade sequer no repertório em relação à performance em Lima, a apresentação anterior, a apresentação da capital paulista deveu seu brilho especialmente à interação e à entrega dos fãs. Afinal, desde antes do início do espetáculo, eles já se mostravam impulsivos e inquietos.

Sempre em sinal de reverência, gratidão e a pura admiração, a plateia fez, do show, um evento em que toda a música, mesmo aquelas de respiro, fosse ovacionada e cantada em coro durante os refrões. Já em relação à banda em si, John Cooper atuou razoavelmente bem como frontman. Sem as suas investidas com discursos cristãos-motivacionais e seus incentivos à histeria e autoestima do público, não haveria elo consistente entre banda e público.


Intensidade acabou sendo, de fato, a palavra que marcou tal performance, a pernada paulistana da Revolution World Tour. Densa, dramática e instrumentalmente potente, ela, invariavelmente, trouxe nostálgicos déjà vus para aqueles que também estiveram naquele show de 2015 ocorrido no Carioca Club. Títulos como Rise, Sick Of It, Hero e Comatose foram provas disso.


Em relação a tal poderio sonoro, a apresentação mostrou, no entanto, falhas em sua mixagem. Ou, talvez, uma escolha de local com acústica insuficiente. Afinal, o som era tão intenso que, nem sempre, era possível de se perceber as harmonias e as sonoridades mais melodiosas de cada composição. Inclusive, havia momentos em que nem mesmo a sonoridade do violoncelo de Tate Olsen era percebida com facilidade. 


Ficou a cargo da plateia, porém, a expectativa e a esperança de que Cooper cumpra a sua promessa e traga o Skillet mais vezes a São Paulo. Como em 2026, como ele mesmo pontuou, é o ano em que o grupo comemora 30 anos, pode ser que esse seja um verdadeiro sinal de retorno - e que ele ocorra em um local maior e com acústica superior, como é o caso do Espaço Unimed. Resta, simplesmente, torcer para que não sejam necessários outros 10 anos para que o conjunto pise novamente em solo paulistano.

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Sobre o crítico musical

Diego Pinheiro

Quase que despretensiosamente, começou a escrever críticas sobre músicas. 


Apaixonado e estudioso do Rock, transita pelos diversos gêneros musicais com muita versatilidade.


Requisitado por grandes gravadoras como Warner Music, Som Livre e Sony Music, Diego Pinheiro também iniciou carreira internacional escrevendo sobre bandas estrangeiras.