Dirty Honey + Jayler - São Paulo (Audio)

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Fazia 25ºC naquele começo de noite na cidade de São Paulo. O vento era fresco, o que dava uma leve lembrança da generosa chuva que caiu em determinados bairros do município. Com algumas ruas ainda úmidas, a capital paulista, por volta das 19h30, já começava a presenciar o encerramento de sua vida diurna e o nascimento da sua típica vivacidade noturna.


Nos arredores do metrô Barra Funda, por exemplo, o movimento era intenso. Fosse pelos próprios transeuntes da malha férrea, do conglomerado rodoviário ou até mesmo pelas pessoas que circundavam as redondezas da UNINOVE, o volume de pedestres mostrava a realidade de um grande centro urbano. Porém, essa paisagem estava escondendo um acontecimento.


Apenas para aqueles que se aproximavam da fachada da Audio Club, já na Francisco Matarazzo, podia ter ideia do que aquela noite de 02 de abril guardava. Nas paredes do estacionamento que fazia divisa com a casa de show, apenas um varal vendia souvenirs tanto do Dirty Honey quanto do Jayler, mostrando o desconhecimento desses nomes em relação ao mainstream.


O mesmo se observou no interior da casa. Às 19h55, faltando meia hora para o início da noite, de acordo com os organizadores, o local estava vazio. Apenas um pequeno número de pessoas se via aglomerado na banheira do palco, enquanto uma pequena parcela circulava pelo espaço com copos de bebida e conversando com suas respectivas companhias.  Pouco depois, houve a passagem de som e o ambiente foi dominado por uma sequência de músicas ambiente de peso englobando nomes como Van Halen, Rush, Soundgarden, Alice In Chains e Korn, apenas como alguns exemplos.


Foi então que se percebeu o que pareceu ser uma estratégia da produção. Ao invés das 20h30, como estava previsto, houve mais trinta minutos de espera como uma forma de ter a casa mais preenchida, o que não aconteceu. Quando o relógio marcou 21h, com o espaço ligeiramente mais ocupado, o evento daquela noite teve seu início.


Jayler


Entrando aos poucos no palco, cada um dos quatro membros do grupo, ao se posicionarem em seus respectivos postos, puxou a explosiva Down Below. Ainda que tenha uma boa mistura de folk com hard rock, a canção não foi suficiente para estimular a participação do público, tampouco a interação por parte da própria banda.



Servindo para apresentar o perfil sônico dos britânicos, a faixa, ao menos para aqueles que o desconheciam, pôde ter a clara noção de suas referências. Down Below ilustrou um vocal misto de Janis Joplin, Robert Plant e Josh Kiszka. Já o som, com direito aos solos de gaita entoados pelo cantor, mostrou uma fusão entre Led Zeppelin, Aerosmith e ligeiros traços de Black Sabbath.


Com um visual setentista simétrico, o grupo logo puxou The Getaway, provando a familiaridade com os nomes anteriormente citados, mas com especial menção ao Aerosmith e seu single Mama Kin. Ainda que fosse enérgica, sensual e provocante, a faixa ainda não foi suficiente para conquistar o apoio da plateia. Tal feito foi acontecer somente durante Lovemaker, momento em que o público gritou empolgado durante a introdução graças ao estímulo do cantor, que, inclusive, apresentou Tyler Arrowsmith, o guitarrista; Ricky Rodgkiss, baixista e tecladista; e Ed Evans, o baterista, além de se autointroduzir pedindo muito barulho.


Ainda assim, o ponto alto do show estava por vir. Em Need Your Love, além de tirar sensualmente a camiseta, o cantor James Bartholomew arriscou algumas reboladas à frente da bateria apalpando seu falo de maneira cínica. Durante a música, o vocalista também brincou com a ideia de fazer cantorias para, depois, serem seguidas pelo público. Entre melismas e explorações de sua extensão vocal, foi inevitável a comparação dele com Josh Kiszka. 



Outros dois momentos mereceram destaque durante a apresentação. Além de um instante de total improviso em que palhetas começaram a ser arremessadas para a plateia por sugestão de um pagante, durante The Rinsk, a saideira, Arrowsmith ousou ao solar no meio do público, sendo amplamente aplaudido e levando a apresentação ao fim na marca das 21h53.


Com pouco mais de cinquenta minutos de duração e um set de nove canções, o Jayler não fez uma simples apresentação. Fez um verdadeiro teste de fogo, uma prova de força. Em sua primeira vez no Brasil, o grupo desfilou todo o seu potencial. Desde fornecer um som forte e consistente, o quarteto mostrou poder teatral, sintonia sônica e uma vontade sincera de encantar o público e deixar a sua marca.


Nesse aspecto, é uma verdade inconveniente que o público ficou reticente, mas apenas no começo. Soltando-se aos poucos, foi bonito de observar que, já no meio da performance, o Jayler estava no comando da situação. E, assim, o grupo inglês mostrou ser uma feliz surpresa para aqueles que o ouviram pela primeira vez.


Dirty Honey


Pouco menos de quarenta minutos após o término da performance do Jayler, o palco foi devidamente arrumado. Exatamente às 22h27, o Dirty Honey, assim como o grupo antecessor, iniciou sua primeira apresentação em solo paulistano - e brasileiro - e, inclusive, sul-americano.


Já durante Gipsy, a faixa de abertura da performance, o vocalista Marc LaBelle mostrou estar no controle da situação por, simplesmente, ser capaz de ter a total atenção do público através da sugestão de interações à base de palmas e entoando “hey ohs” que eram prontamente reproduzidos pela audiência. Cenário semelhante aconteceu, inclusive, durante California Dreamin’, a segunda faixa do set, com seus versos finais sendo cantados em coro.


Durante Heartbreaker, porém, LaBelle não alcançou as devidas extensões vocais pedidas pelo refrão. Felizmente, esse feito não interferiu na receptividade da plateia, que, durante Scars, bateu palmas no compasso rítmico enquanto repartiu a Audio entre o som dos instrumentos e a estridência constante dos gritos que reverberaram livremente pelo espaço.


Ainda assim, foi durante Don’t Put Out The Fire que a performance observou a chegada a seu ponto alto. Afinal, durante a performance, LaBelle simplesmente desceu do palco e, com uma cadeira na mão, caminhou pela plateia até escolher um lugar. Ponto o móvel no chão, ele ficou de pé no objeto e continuou performando a canção dali mesmo, no meio da plateia, sendo constantemente ovacionado.


Com outras faixas importantes na conta do repertório, como The Wire e a balada hard rock-gospel Another Last Time, o Dirty Honey percebeu estar no controle da plateia durante Won’t Take Me Alive, momento em que a audiência entoou as palmas no ritmo da canção sem a necessidade do estímulo de LaBelle. 


Nesse sentido, outra coisa que chamou a atenção e saltou aos olhos foi a postura do baixista Justin Smolian. Duro no lado esquerdo do palco perante toda a apresentação, ele finalmente esboçou, durante When I’m Gone, faixa que contou com solo de guitarra de John Notto, sinais de estar à vontade com o público e a performance em si. 


O clima então esfria em razão da saída dos integrantes do Dirty Honey. Com o palco vazio, mas com as luzes produzindo uma luminosidade penumbrante, o público rapidamente começou a pedir o retorno do grupo com entoares de “olê olês”. Sem demora, os angelinos retomaram os seus postos no palanque e fizeram uma grande surpresa ao público presente. Pela primeira vez, tocaram Lights Out, faixa prevista para integrar a track list de seu próximo álbum. E a swingada Rolling 7s, provando seu cacife de clássico, serviu como a saideira, marcando o fim da primeira apresentação do grupo em solo paulistano e, consequentemente, brasileiro e latino-americano, às 23h34.



Tal performance deixou, como uma de suas lembranças, a imagem de uma banda de visual ligeiramente conflitante por misturar anos 70 com um glam típico dos anos 80. Ainda assim, isso não atrapalhou sua apresentação. Afinal, o Dirty Honey mostrou, além de ter maturidade e precisão sônica, certa fama no Brasil ou, ao menos, na capital paulista.


Isso porque ao demonstrar aptidão, desenvoltura, presença de palco e uma notável confiança, LaBelle ganhou o público já na primeira música. Sempre sendo obedecido entre os estímulos de palmas e das cantorias, ele ainda ousou cantar, literalmente, no meio da plateia. 


Um ponto interessante a ser pontuado é a performance dos bateristas. Tanto Jason Ganberg quanto Evans se mostraram visivelmente rígidos, mas, em retrospecto, o primeiro ainda se apresentou ligeiramente mais à vontade. O mesmo, porém, não pode ser dito em relação a Notto. Sempre estático e de feições petrificadas, só foi se soltar no final do show.


Com um setlist que abrangeu músicas de seus dois álbuns, o Dirty Honey, durante sua performance de pouco mais de uma hora, surpreendeu o público pela apresentação de uma faixa inédita. Com base no que foi levantado até aqui, ficou claro, na noite do dia 02 de abril de 2026, quem foi o aluno e quem foi o professor. Porém, uma coisa é certa: tanto Jayler quanto Dirty Honey mostraram ter total capacidade de crescer e de serem ainda mais marcantes a ponto de fazerem, da boa surpresa, uma constância.

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Sobre o crítico musical

Diego Pinheiro

Quase que despretensiosamente, começou a escrever críticas sobre músicas. 


Apaixonado e estudioso do Rock, transita pelos diversos gêneros musicais com muita versatilidade.


Requisitado por grandes gravadoras como Warner Music, Som Livre e Sony Music, Diego Pinheiro também iniciou carreira internacional escrevendo sobre bandas estrangeiras.