NOTA DO CRÍTICO
Diretamente de Santa, um novo nome surge na cena da música independente brasileira. O sorosoro, quinteto de Blumenau, se anuncia oficialmente no mercado com seu álbum de estreia. Eu E Você Ou Tudo O Que Eu Não Quero Que Você Saiba foi gravado entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026 no Estúdio Pazini e no estúdio Electric Meduza, ambos catarinenses.
É curioso como com apenas um toque, um sonar de natureza sintética, o ouvinte já seja convidado a imergir profundamente em um universo de caráter introspectivo. Proferido pelo sintetizador de Pedro Museka, esse som, agudo e equilibrado entre açúcar e resquícios de acidez, ele, muito além de servir como uma espécie de anfitrião que oferece ao seu visitante uma boa dose de torpor, despeja pelo ambiente uma conotação profundamente atmosférica. No entanto, no instante em que a guitarra entra em cena, com seu reverberar grave, esse mesmo ambiente é abraçado, agora, por lampejos de uma melancolia que, claramente, deseja alcançar mais espaço. Promovendo um contorno que assume vestes reflexivas, esse instrumento vai deixando o ecossistema com uma energia ainda mais intimista a ponto de conseguir fundir lembrança e memória à sua tristeza de sensibilidade pegajosa. Denunciando a sua silhueta soturna, a canção ganha tons rascantes com a entrada de uma segunda guitarra preenchendo o primeiro plano melódico. Agora, portanto, o sentimentalismo se torna visceral graças à presença da bateria de André Müller. Suja e pulsante, ela é o elemento que faz com que a faixa se transforme em um produto inquestionavelmente dramático e de profundidade emocional incontestável. A partir desse ecossistema, que se fecha com a percepção de uma terceira guitarra preenchendo o campo melódico, a faixa, no comando sônico quase ditatorial do trio Caio Pazini, Miguel Alois e Museka, não apenas mergulha, mas se prende na estética esotérico-melancólica do shoegaze a tal ponto que inebria o espectador antes mesmo que o escopo vocal possa dar o ar da graça. Quando ele finalmente se anuncia, no comando de Museka, agora explorando seu lado vocal, a canção é tomada por energias sussurrantes, dolorosas e sofridas que ganham força por meio da interpretação lírica amofinada assumida pelo vocalista. Com seu tom agudo e levemente adocicado ao ponto de rememorar aquele de Marcelo Camelo, ele é capaz de enaltecer ainda mais o intimismo da obra de forma a torná-la profundamente hipnótica. Com direito a uma ponte de conotação ecoante e fantasmagórica, nichetok/corecore, na experimentação de versos rimados como forma de ser melhor compreendida e assimilada pelo ouvinte, além de oferecer associações à mitologia grega, escorrega em pleonasmos que destacam a natureza casual de seu diálogo. Aqui, o desespero se mostra na pele do eu-lírico que parece nutrir forte desejo de consertar eventuais erros ou tentar novos começos consertando o passado. O cerne da discussão, porém, transmite a ideia da fugacidade da vida em razão do tempo imparável.
Ela já tem um início de conotação suspirante. Pela forma com que a guitarra tem suas cordas dedilhadas, a canção assume um contorno que não transpira apenas a reflexão em sua pura forma, mas um senso de cansaço misturado a uma interessante conotação de desesperança. Introspectiva e reforçando a sua nuance de melancolia com a entrada de uma segunda guitarra, a canção transforma delicadeza em torpor. Graças à percepção mais clara do baixo de Gustavo Hames, que, com um groove encorpado e forte, entrega corpo à sonoridade, a canção passa a ser agraciada pela dose ideal de densidade, o que coopera na obtenção de uma postura curiosamente lacrimal. É preciso pontuar que, aqui, muito mais que na canção anterior, o desespero se apresenta como o alicerce sensorial. Presente desde os primeiros instantes líricos, ele captura o ouvinte de imediato e o torna instável, vulnerável e com ares curiosamente enlouquecidos. Inquestionavelmente soturna e amorfinante, a canção chama a atenção pela sua estrutura inversa, afinal, ela sai do refrão e vai para o verso de ar, de forma a fazer com que a explosão de insanidade misture ideias de presente e passado; exortação e censura emocional. Tendo o baixo como seu protagonista sônico durante os versos de ar, a canção assume tomadas de lamúrias rascantes, pegajosas e pinçantes que, de certa forma, reforça a ideia de ausência de perspectiva. Em AH! EU ODEIO TRABALHAR, o sorosoro acaba retratando a realidade de muitos brasileiros que veem o trabalho como uma espécie de prisão, escravidão. De uma forma mais moderna, mas ao mesmo tempo, trazendo uma reflexão não apenas político-social, mas sociocultural e sociológica, a faixa chama a atenção por fundir os ideais absurdo-existencialistas de Albert Camus com a antropologia do trabalho seguida pelo pensador José Sérgio. Dessa forma, a canção traz o indivíduo como peça de maquinário, que perde o brilho, a motivação, os sensos de pertencimento e propósito enquanto vive uma espécie de linearidade hipnótica e manipulativa.
Tal como uma marola fria vinda de um horizonte sem fim banhado por um céu cinza espectral, a guitarra que puxa a introdução é lenta, é triste e cabisbaixa. Mesmo diante da brisa adocicadamente ácida fornecida pelo teclado, a canção consegue conquistar um senso de movimento mais palpável, mas não consegue fugir do toque lamentoso e lacrimal que preenche por completo a sua atmosfera. Após um instante de silêncio, a canção ganha não apenas a presença da bateria, mas a da linha lírica, que vive de imediato a partir de uma interpretação lírica entorpecente. Caminhando por entre uma cadência de métrica 4x4 a ponto de flertar com o blues, é interessante perceber que, na base sonora, a faixa assume uma conotação curiosamente espirituosa e transcendental. Dando um novo significado às emoções expressas pelo cantor, portanto, essa sonoridade sintética se funde aos falsetes muito bem proferidos por Museka de forma a fazer com que o lamento assuma a forma de iminência. Surpreendendo por fluir para um refrão de conotação sonora não apenas explosivo, mas estridente e denotativamente áspero, a faixa transforma a dramaticidade em uma espécie de lamúria corrosiva que tem, na figura grave, sofredora e lancinante do violoncelo de Caroline Gruetzmacher, o elemento que representa fielmente a sua dor de natureza indescritível. Diante disso, Uma Rapidinha Antes que Gameciel, o Kaiju Tartaruga Marinha, Tribute a Velha Central traz consigo um lirismo que mostra o dilema e o conflito interno do personagem lírico. Oferecendo o ato sexual, sem escracho, banalidade ou deboche como o centro de seu enredo, a obra destaca a vulnerabilidade emocional de quem há muito já sofreu e hoje teme se abrir. O medo de apresentar uma essência completamente frágil faz com que ele opte pela solidão e se sinta desmerecedor de receber amor.
Ela nasce de uma maneira denotativamente pulsante. Explorando a simetria existente entre bateria e baixo, a canção faz com que o time instrumental da base, desde o início, construa um alicerce preciso e equilibradamente denso para fazer com que a sua sonoridade seja percebida de forma firme e precisa. Ganhando nuances de um torpor de natureza esotérica a partir da interação realizada pelas guitarras, a faixa adquire frescor e um tom delicado curiosamente reconfortante. Agraciada por bons sinais de fluidez em razão da forma como a bateria evolui a sua desenvoltura, a canção chama a atenção por, no instante imediato em que reverencia a vida de seu enredo lírico, ser pautada por um dueto. Apresentando a simetria sinérgica entre o tom intermediário e agridoce de Museka e o timbre doce e aveludado de Milena Ruas, a faixa consegue oferecer uma leveza estonteante de aroma floral hipnótico. Delicada e de textura fofa, Anna Liz (O Mundo É Da Sua Cor), ao manter a adoção de rimas pobres para facilitar o elo do ouvinte com o conteúdo verbal, traz um diálogo que destaca o amor ante as intempéries da vida. Além de aparentar trazer a temática secundária de gravidez precoce e, portanto, descuido sexual, a faixa salienta que, mesmo diante de problemas e desejos terceiros de separação, a lealdade, a confiança e o companheirismo seguem intactos, formando um amor firme e inabalável.
Bem ao fundo é possível se ouvir burburinhos. Vozes cortadas que mostram um diálogo, ou melhor, um aparente monólogo entrecortado pelas falhas auditivas. No entanto, a partir de uma guinada gradativa que esancara a adoção do efeito fade in, a canção vai ganhando vida. Diante de uma sonoridade que combina as três guitarras em uníssono, além de uma bateria de caráter pulsante, suja e de conotação dramática, a faixa é agraciada por uma textura que, apesar de corrosiva, tem, em si, contornos curiosamente agudos e açucarados. É assim que, quanto mais avança em relação à sua estrutura, a obra denuncia a sua verdadeira natureza. Não apenas um interlúdio, mas tomando a forma de uma faixa instrumental, (HEAVY STORM DUSTER) combina texturas ásperas e sujas com um quê sombrio, introspectivo e dramático que apresentam o rock alternativo também como um importante ingrediente de sua esfera sonora.
Aqui, a introdução chama a atenção por ser calcada em uma atmosfera swingada e acústica. Proclamada pela bateria e sua desenvoltura levemente repicada que tem no sonar opaco da haste da caixa o seu principal destaque, ela confere à obra uma noção de movimento amaciada e fluida que permite a elucidação de um burburinho de vozes ao fundo. Logo depois que o scratch é feito de maneira cuidadosa, pode-se dizer que a composição tem, enfim, o seu nascimento devidamente proclamado. Por meio dos dedilhares da guitarra que extraem, dela, uma sonoridade ondulante de caráter reflexivo e de postura introspectiva, tal amanhecer é tomado por uma delicadeza aromática que, curiosamente, fica acima de um teor propriamente letárgico. Ainda assim, sabores azedos passam a fazer parte de sua receita enquanto uma terceira guitarra perambula pela dianteira sonora destacando a sua distorção flertante com o grave. É então que o lirismo começa a ser vivido por uma voz delicada, mas cuja pronúncia busca por respostas através da assumição de um comportamento inteiramente intimista. Chamando a atenção não pelo seu frescor embriagante, mas, principalmente, pelo flerte em relação a uma tomada nordestina a partir do tilintar do triângulo que induz à percepção do xote em meio à sua receita sônica, Sutileza, com seu conteúdo verbal completamente enxuto, traz para os holofotes uma discussão que circunda os questionamentos acerca da temática do merecimento. Ao mesmo tempo, mas ainda nesse mesmo sentido, a obra parece lidar com as críticas de terceiros em relação à figura social assumida por determinadas pessoas e a desnecessidade do conhecimento da origem desse acontecimento. Assim sendo, dá até para inferir que Sutileza, de certa forma, dialoga sobre a diferença de classe, tornando-a uma obra com ainda mais material para reflexão.
O baixo não surge de maneira pura e simplesmente marcante. Ele vem firme, certeiro, mas com um olhar fixo, de predador que caminha sorrateiramente até conseguir dar o bote em sua presa. De tonalidade denotativamente grave e reverberante, ele consegue inserir, tão logo entra em cena, uma densidade que chega a ser até mesmo pesada. Curiosamente, porém, assim que a bateria e a guitarra passam a complementar o escopo sonoro, a canção acaba transpirando uma sonoridade mais aberta e estridente, mas graciosamente embebida em boas doses de prostração. Nesse ínterim, de forma interessante, parece até que o baixo se escondeu, assustado com a atmosfera ligeiramente mais solar. No seu lugar, se é que pode dizer assim, um sonar agudo e adocicado, de natureza quase assobiante, é percebido ao fundo, de forma a criar uma ideia de torpor associada à tranquilidade e ao êxtase. Entrando em sintonia com esse ecossistema, a obra, a partir do exato instante em que fornece o enredo lírico com a devida vivência, inicia uma exploração sensorial de dulçor e fragilidade a tal ponto que transmite a ideia de imaturidade. Graças à forma com que as palavras são proferidas pelo vocalista, não apenas essa identidade é destacada, mas também uma densa conotação de intimismo. Explorando as pausas como um importante elemento em sua receita, a faixa encontra, em tais instantes de silêncio, uma forma de brincar com as ideias de vazio e economia estética. Com o apoio de sonoridades reverberantes como forma de alcançar um ponto sensorial espacial e de profundidade intimista, Eu E Você Como Alegoria Para A Guerra Fria se apresenta como uma obra que, liricamente, brinca com a ideia de amor e ódio de tal forma que acaba romanceando a impulsividade, enaltecendo o senso de controle e da reciprocidade em relação à mentira que agrada apenas para manter a boa convivência.
Felizmente, ou melhor dizendo, curiosamente, parece que é chegado o momento em que Eu E Você Ou Tudo O Que Eu Não Quero Que Você Saiba oferece uma primeira obra livre de melancolia. Afinal, com seu início de energia branda, aconchegante e de natureza aromaticamente leve, a faixa envolve o espectador em uma espécie de êxtase sensorial, uma experiência livre de sofrimento, de dor, de lamento. De lágrimas. Pode até ser que tais emoções estejam estancadas em razão da generosa dose de torpor aqui despejada, mas o fato é que a calmaria realmente oferece um agradável tom de bem-estar. Fresca e explorando um tom pensativo e, portanto, reflexivo, a faixa, de uma forma bastante interessante, assim que o enredo lírico começa a ser construído, permite que o ouvinte identifique um estado de agonia parecido com aquele vivenciado em AH! EU ODEIO TRABALHAR. Mesmo que de postura mais branda, o que se vê aqui é a agonia em sua forma mais pura. Colocando, portanto, o desespero também sob os holofotes, a canção usa de uma linearidade estética que amplifica o senso de hipnotismo de tal forma que realça a ausência de lucidez, que não é retomada mesmo diante de frases rítmicas minimamente sincopadas. Diante desse alicerce, Eu Já Não Aguento Mais, apesar de ser a composição mais curta do álbum, é aquela que aborda, com profundidade, um relacionamento em frangalhos. Uma relação em que não existem reciprocidade nem liberdade de ação, tendo o medo e o domínio andando lado a lado com a insegurança, a carência e a baixa autoestima como prova da dependência emocional.
A maneira como a guitarra puxa a introdução envolve o espectador em um universo sensorial calmo e delicado. Quase como uma espécie de aquecimento de luau em plena praia deserta adornada por um céu crepuscular poente, a faixa explora o veludo e o intimismo com um toque gracioso de respeitosa sensualidade. Conforme ganha a presença do restante das guitarras, a canção adquire para si uma sonoridade mais firme, mas, ao mesmo tempo, mais reverberante e ecoante, fazendo com que o ouvinte acabe sentindo até mesmo ligeiros lapsos de vertigem. Agraciada por um backing vocal que acrescenta ainda mais leveza e maciez à esfera sonora, a faixa explora a morfina ao mesmo tempo em que destaca a sua estrutura linear de forma a ter, nas modulações lírico-interpretativas, a difusão do senso de fluidez. Esse ecossistema faz de Ficarei Olhando Até Que Me Entendas uma faixa que funciona como uma continuação sequencial de Eu E Você Como Alegoria Para A Guerra Fria. Afinal, aqui, da mesma forma que na obra anteriormente citada, o eu lírico lida com a antítese do amor e do ódio, do desejo e da rejeição. É mais uma maneira de o sorosoro explorar a ideia de desarmonia na relação, da estafa e da necessidade da dependência como uma forma enganosa de preencher o vazio apenas com o fato de ter alguém do lado, mas que há muito já não causa empatia, bem-estar e, principalmente, prazer.
Dá até para dizer que a sua introdução tem um quê de épico. Afinal, enquanto o sonar da distorção pincela o ambiente com sua postura um tanto contorcionista, a bateria surge em meio a uma sensorialidade chuvosa em razão do ressoar alcançado pelo constante ricochetear no prato de ataque. Intrigando o ouvinte pela inserção de uma guitarra aveludada moldando os primeiros e prematuros sinais melódicos na companhia do reverberar tilintante da cúpula do prato de condução, a faixa mergulha em um primeiro verso de conotação dramática, mas longe de ser pungente. Em um tom que mistura os sensos de descontentamento com ímpetos de rebeldia, questionamento, imposição e um toque de absurdez, o lirismo é exposto quase como um plano de fundo de uma desenvoltura rítmico-melódica intensa, enfática e entorpecidamente explosiva. O que mais chama a atenção na forma como Museka vive tal escopo verbal é a sua posição desafiadora em relação ao posicionamento do próprio ouvinte em relação ao conteúdo até então exposto. Aqui, muito mais do que em Eu E Você Como Alegoria Para A Guerra Fria, o sorosoro usa as pausas e, portanto, o silêncio, como uma maneira de apresentar uma textura solitária, opaca, sem vida. Diante disso, não é difícil que uma sensação incômoda atinja em cheio o espectador, que se percebe extremamente vulnerável e desprotegido, mesmo quando a guitarra se apresenta de forma minimalista, averiguando, com o ressoar de poucas de suas cordas, um toque introspectivo. Na completa contramão de Eu Já Não Aguento Mais, Jogo Da Galinha, com sua duração superior a oito minutos, se consagra como a mais longa de Eu E Você Ou Tudo O Que Eu Não Quero Que Você Saiba. Com essa extensão temporal, a faixa, a partir do comando do grupo, é estruturada em duas partes bem divididas. Enquanto a primeira bebe intensamente do torpor, a segunda é mais intensa e densa. Desesperada talvez seja a melhor definição. E, assim, Jogo Da Galinha entra na mesma linha de crítica sociocultural de AH! EU ODEIO TRABALHAR. Com o descontentamento em relação ao governo do país à flor da pele, a canção brinca com o conceito de patriotismo, a manipulação governamental e a cegueira social como sintomas de uma sociedade fadada à ignorância e, principalmente, ao descaso descarado.
A maneira como a sonoridade do bandolim é aqui explorada alcança um patamar em que soa tão regional e bucólico quanto a própria viola. Fornecendo, portanto, um toque interiorano aromático ao ambiente, o instrumento, muito além de trazer frescor, faz, desse senso, algo envolto em uma curiosa e penetrante temperatura fria de sabor levemente adocicado. Intimista e gélida, portanto, a faixa traz melodia de caráter triste que parece dar significado às lágrimas de natureza ainda enigmática. Anna Liz (Eu Vou Aonde Você For) é uma direta mudança no destino dialético de Anna Liz (O Mundo É Da Sua Cor). Simplesmente ao dar ênfase a outro verso, o sorosoro muda o conceito da obra e faz com que o ouvinte perceba ainda mais o espírito de parceria, união e lealdade existente entre o casal afetado pela súbita e surpreendente realidade da gravidez.
Para muitos, se prender a sonoridades de caráter manso, sereno e, às vezes, bastante linear, pode ser sacal, cansativo, tedioso. A verdade, porém, é que, dentro do que parece ser mesmice, existe profundidade - seja ela emocional ou no que tange à experimentação de texturas. Eu E Você Ou Tudo O Que Eu Não Quero Que Você Saiba é, portanto, um material que dá vida e vazão a tudo aquilo que constantemente fica estancado no interior do indivíduo.
Pegajoso, ele se aprofunda, de fato, na dissecação da dor, do lamento. Do sofrimento. Transitando livremente entre temáticas sociais e outras com foco mais psicológico, é interessante perceber como o disco trabalha as emoções de forma a exibir e desnudar a vulnerabilidade, a insegurança, a desproteção. Dentro desse universo, o indivíduo é uma joia bruta que acumula a energia a ele oferecida diante da vivência das mais diferentes situações.
Chamando a atenção pela análise da dialética de amor e ódio presente em faixas como Eu E Você Como Alegoria Para A Guerra Fria e Ficarei Olhando Até Que Me Entendas; mas também mergulhando em uma visão consciente, reflexiva e questionadora por parte do sorosoro, como em títulos AH! EU ODEIO TRABALHAR e Jogo Da Galinha, o disco é um material que, essencialmente, traz o relacionamento como a base de seu diálogo lírico-sonoro. Não é de se espantar que existam momentos de alusão ao puro romantismo, como também ao caos e ao descontentamento.
Pautado em atordoamento, torpor e emaranhado por posturas pegajosamente introspectivas, Eu E Você Ou Tudo O Que Eu Não Quero Que Você Saiba tem sombra, tem dor e tristeza. Tem desespero e angústia, detalhes que atordoam o espectador, mas o fazem lembrar da inconstância do ser humano. E para dar vida sonora a todas essas características, o shoegaze, com seu aspecto aéreo, constantemente intimista e choroso, encapsula perfeitamente o torpor que vem com a desarmonia que assola os diversos campos da vida.
Claro que, junto dele, o rock alternativo - e até mesmo o xote - são outras importantes peças, principalmente em relação ao âmbito sensorial. De instrumental claro e transparente, mas nem sempre cristalino, o disco destaca o profissionalismo de Arieu Felipe no trabalho de mixagem. Enfatizando o atmosférico e o brisante, Felipe faz com que o álbum, em certos momentos, tenha vida própria e autossuficiente, especialmente no esquema da produção, que faz com que o produto assuma certa linearidade e senso de movimento cíclico.
Fechando o escopo técnico, vem a arte de capa. Assinada por Mariana Marte, ela é adornada diante da captura da briga de dois cachorros diante de uma paisagem noturna em plena floresta temperada. Enfatizando o sombrio, mas também a agressividade, a inconstância e a imprevisibilidade, a obra de Mariana é um recado de que tudo aquilo que é constantemente censurado, uma hora escorre. E quando escorre, o faz de uma forma incontrolável, impiedosa e impulsiva.
Lançado em 13 de março de 2026 de maneira independente, Eu E Você Ou Tudo O Que Eu Não Quero Que Você Saiba apresenta a pura dissecação da vulnerabilidade do indivíduo. Tendo o silêncio estético-estrutural como forma de ampliar a percepção de inconstância e fragilidade, o disco transforma o vazio em uma verdadeira descarga elétrica de emoções.

