NOTA DO CRÍTICO
Estava uma tarde agradável. Céu limpo com um azul-anil em temperatura amena próxima aos 25ºC, tal como indicavam os termômetros urbanos espalhados pelos arredores do Metrô Barra Funda. Desde as calçadas próximas, o que se via eram pequenos aglomerados de pessoas. Todas de preto seguindo, como em uma trilha, o mesmo caminho rumo ao Memorial da América Latina.
Ali, acontecia o segundo e último dia da edição brasileira do Bangers Open Air, com uma seleção de bandas que, na data, foi do calibre de nomes como Malvada até a internacionalmente reconhecida Angra. Entre os vários palcos que moldavam a paisagem do lugar, um se destacava. Era o Hot Stage, principal palanque do festival.
Ali, tocaria, próximo às 20h, o Angra, que, naquela data, estaria comemorando os 25 anos do álbum Rebirth e levaria ao palco sua formação clássica, com nomes como Aquiles Priester, Edu Falaschi e Kiko Loureiro. Como banda de abertura de tal celebração, estava o Smith/Kotzen, banda formada por Adrian Smith e Richie Kotzen.
Marcada para ter início às 17h15, a apresentação do grupo foi respaldada por uma plateia generosamente preenchida que, às 17h12, viveu um curioso encontro de Iron Maiden e Mr. Big. Diante de uma introdução audiovisual ao estilo sci-fi, o Smith/Kotzen, perante um público bastante morno, entrou ao palco ao som de Life Unchained, canção com uma transformação temática que sai de um marasmo linear a uma energia hard rock sexy e poderosa. Importante pontuar que, desde tal performance, a banda apresentou consideráveis falhas em sua mixagem, com a guitarra de Kotzen sobressaindo desarmonicamente em relação ao restante dos instrumentos. Inclusive, a própria voz do cantor soou fraca e frágil.
Felizmente, já em Black Light, a segunda canção do set, a voz de Kotzen apresentou uma considerável melhora, se mantendo durante o restante da performance, a qual teve interessantes pontos. Em Wraith, por exemplo, Adrian Smith tentou puxar a participação do público a partir do estímulo das palmas, atitude que foi parcialmente obedecida. Já em Taking My Chances, o baixo, finalmente, pôde ter sua cooperação muito bem percebida. Inclusive, foi em Darkside que o instrumento mais brilhou nesse sentido.
Outro momento que merece atenção foi a performance de Hold On Me. Como uma forma de introdução, Kotzen aproveitou para apresentar seus músicos de apoio: o baterista Bruno Valverde e a baixista Julia Lage, ambos brasileiros. Foi durante tal faixa que Richie Kotzen viveu sua melhor performance tanto vocal quanto instrumental, desfilando seu virtuosismo.
Foi em Scars, contudo, que o show teve seu pico de qualidade sonora. Além de ser palco do melhor entrosamento entre Adrian Smith e Richie Kotzen no que se refere ao esquema de dueto, a faixa também destacou a sinergia e a harmonia que, bem conquistadas, enrijeceram a parceria entre os músicos.
Indiscutivelmente, porém, é a constatação de que Wasted Years, cover do Iron Maiden, levou o título de execução com melhor entrosamento público-banda. Cantada, mesmo que sem a mesma potência, por Smith, música foi a única que conseguiu uma participação espontânea do público, que viu o encerramento da apresentação se anunciar na marca do horário pontual das 18h15.
Com uma performance de pouco mais de uma hora, o Smith/Kotzen usou bem seu tempo, com uma setlist majoritariamente moldada pelas canções de Black Light/White Noise, seu segundo e mais recente álbum. Foi, porém, durante as faixas de seu disco de estreia que o grupo teve melhor qualidade em sua performance.
Vale pontuar, contudo, que a apresentação do grupo foi, infelizmente, marcada por uma atividade ruim no quesito da mixagem. Escondendo a contribuição do baixo durante um vasto período, ela ainda escorregou ao manter o som da guitarra de Kotzen mais alto que o do restante dos instrumentos.
Felizmente, o show também deixou boas memórias ao público. O entrosamento entre Smith e Kotzen era evidente, assim como o virtuosismo de ambos os músicos. Outro ponto que mereceu atenção foi a presença de palco de Julia. Usando bem o palco, ela caminhou frequentemente pelo espaço e desfilou uma leveza que se contrapôs harmonicamente à rigidez e à força empregadas por Valverde nas levadas rítmicas, as quais eram sempre vistas com precisão e bom pulso.
Ainda que o público tenha se mantido inexpressivo durante uma esmagadora parte da performance, é indiscutível que o Smith/Kotzen conseguiu mostrar, durante seu tempo enxuto e um set com um total de 11 músicas, seu entrosamento, seu virtuosismo e sua musicalidade apurada. Entre dramas e sensualidades, e mesmo com os escorregões técnicos, o grupo serviu como uma boa abertura ao headliner do dia, mesmo que tenha sido pouco apreciado pela plateia.

