Ela tem seu nascimento marcado por uma crueza intimista e minimalista. Por meio de pulsos secos e súbitos produzidos pelo violão, a introdução, mesmo que de maneira embrionária e, portanto, prematura, despeja sobre o ambiente pinceladas de uma melancolia ainda nascente, mas já perceptível. Rapidamente, porém, o rebolar delicado e introspectivo do instrumento dá lugar a um aspecto instrumental surpreendentemente pungente e dramático.
Transpirando agora uma melancolia penetrante, a canção, através de um andamento rítmico calcado no padrão do blues com seu compasso em 4x4, é preenchida por uma linha lírica vivida por uma voz masculina aberta e nasal. Vinda de Dax, ela imprime na atmosfera uma penetrante interpretação verbal calcada no puro sentimentalismo a ponto de beirar, em certos aspectos, com uma espécie de torpor visceral.
Imprimindo dor, lamentação e profundos toques de reflexão através de um conteúdo lírico que transpira, sem controle, honestidade e sinceridade por meio de uma abordagem de cunho autobiográfico, a faixa enaltece o caminhar verbo-interpretativo de Dax. Afinal, aqui ele caminha livremente entre abordagens emocionalmente intensas do soul com ligeiras nuances sensuais do R&B ofertadas em meio a súbitos melismas.
Ainda q ue, estruturalmente, a obra se desenvolva sob um alicerce rítmico completamente linear, Man I Used To Be é uma música que, de fato, chama a atenção pela sua entrega, sua intensidade e camada emocional densamente profunda. Não à toa que, aqui, Dax se apoiou em boias doses de coragem e autoconhecimento para dialogar sobre como o vício pode manipular e aprisionar o indivíduo em ideias e percepções de mundo equivocadas. Ainda que de fato traga alívio às questões sentimental mal-resolvidas, os atalhos entregues pelo torpor em algum momento acabam e fazem com que o indivíduo, inevitavelmente, tenha que enfrentar a realidade. Eis aqui a conquista do cantor: a sobriedade e a capacidade de enxergar a vida com lucidez e o controle da própria mente.

