Mago Trio - Sons Da Rua

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Cinco anos após o seu nascimento, período em que não apenas anunciou singles, mas também alçou voos mais longos com o lançamento de dois EPs curtos e um EP ao vivo, o Mago Trio ressurge diretamente de Belo Jardim com a divulgação de um novo material. Intitulado Sons Da Rua, o novo EP é marcado pela exploração da escuta do cotidiano. 


O swing é algo inevitável de ser presenciado. Desde o início imediato da composição ele está presente não apenas através de um instrumento, mas de toda a conjuntura sônica. Ainda que seja introduzida diante da união sintônica entre a guitarra de Eduardo Albuquerque e do baixo de Gledson Lamartine, essa característica vai rompendo os limites do próprio som enquanto atinge a esfera do cotidiano. Sim, um cotidiano muito bem representado, aqui, pela inserção de burburinhos de vozes cruzados imitando a rotina em andamento, a vida acontecendo na sua mais pura normalidade. Inevitavemente, porém, no instante em que a bateria de Heligeison Feitosa entra em cena, a composição é agraciada por uma transformação estético-estrutural marcante. Não que ela tenha a sua identidade completamente mudada, mas a obra, na presença desse elemento percussivo, se torna agraciada pelas qualidades da precisão, do compasso, da firmeza e, acima de tudo, do ritmo. Sincopada, repicada e requebrada, a composição, a partir daí, ganha dinamismo e uma noção de movimento que combina com a ideia da efervescência dos compromissos, do vaivém das pessoas pelas ruas. Encorpada e combinando detalhes como agudez, dulçor e leves toques de acidez como forma de explorar seu próprio aspecto sensorial, é até interessante de se perceber a existência de singelos contornos reflexivos em meio a uma ambiência que remete ao nordeste graças à maneira como os instrumentos se entrosam em meio a uma audaciosa brisa de incitações entorpecentes sugeridas pela guitarra diante de seus riffs de aspectos mais aveludados. Com um sangue curiosamente sambado, Segunda-feira funciona como um verdadeiro looping, uma vez que termina da mesma forma como começou.


O dedilhado da guitarra chega a oferecer um bom sinal de movimento a partir de sua diversidade de escalas tônicas. Entre vieses crescentes e decrescentes, o instrumento não necessariamente confere um toque amorfinante em sua própria identidade, mas é um fato que ele é capaz de inserir nuances embriagantes que, curiosamente, se combinam com o som ambiente do carro sendo ligado, do vento rompendo a mansa barreira da velocidade, e das buzinas encontradas pelo caminho. Nesse ínterim, o baixo insere a sua contribuição a partir de um groove encorpado ao mesmo tempo em que a levada rítmica surge repicada. Crescendo de forma a evidenciar a interação entre as guitarras base e solo em meio a uma harmonia de completude, Terça-feira traz frases suspirantes que destacam texturas ásperas capazes de romper o torpor que ela mesma oferece conforme permite a sua própria desenvoltura estético-estrutural. O interessante, porém, é o fato de haver quebras rítmicas que conduzem o ouvinte a ambientes sônicos diferentes. Com uma divisão bem pontuada, a faixa apresenta momentos em que conotações progressivas se firmam por meio do comportamento da guitarra, o qual, curiosamente, traz sugeira e uma pitada de aspereza que salienta os sabores até aqui pontuados. Sabores esses que trazem um nordeste mais afiado, um nordeste que pode até ser apresentado com notas de forró, mas se despede com postura, presença e texturas que remetem muito bem à agressividade swingada do manguebeat.


Para alguns, pode ser um simples chiado. Para outros, pode ser o som do mar indo e vindo por entre ondas e marolas. Sendo um ou outro, o fatop é que a ideia de movimento se faz presente desde a sua introdução imediata. E por falar em introduçãoi, diferente dos capítulos, ou melhor, dos dias anteriores, Quarta-feira tem um instrumental puxado exclusivamente pela bateria. Sincopada, firme e com golpes que exalam precisão, ela induz o ouvinte a acompanhar a sua batida conforme amadurece a noção de fluidez já indicada anteriormente. Curiosamente, a canção não parece ligar para padrões preestabelecidos, uma vez que propõe a sua maturação de forma gradativa o que, aqui, significa inserir um elemento por vez. Depois da bateria, portanto, o baixo entra em cena com um groove mais grave de forma a trazer ao cenário uma seriedade surpreendente que, de maneira audaciosa, consegue sugerir até mesmo a tensão e o sombrio. Contribuindo com essa percepção, a guitarra também surge munida de uma afinação mais grave produzido por um dedilhar minimamente mais lento. É interessante, portanto, observar como o Mago Trio consegue reproduzir o cansaço e o marasmo do meio da semana através do som. Diante da densidade nele existente, a composição que dele faz uso representa a agonia e a ansiedade para que o tempo passe e a semana avance, sentimento aparentemente bem assumido pela guitarra durante seu solo de aparência curiosamente borbulhante. Agressiva e bruta, Quarta-feira pode até flertar com o compasso do frevo, mas fecha seus olhos com uma atmosfera metalizada áspera e imunda.


Um som crocante e ambiente recepciona o espectador. Porém, é a guitarra, com seu riff swingado e melodioso que indica os primeiros sinais de contágio e o acompanha em meio ao desenvolvimento da introdução. De afinação intermediária apresentada em um sobe e desce de escalas tonais perante uma desenvoltura amaciada, o instrumento funciona curiosamente como uma espécie de liberação para que bateria e baixo entrem juntos em cena diante de uma sintonia sônica madura e estruturada perante uma cadência mid-tempo. Destacando uma superfície suspirante, a canção pode ousar na criatividade em razão da precisão e maturidade da sua base rítmico-melódica, o que realmente acontece com a adoção de superfícies ásperas e metalizadas por parte da guitarra solo. Com uma quebra estética que sai de uma aparente agressividade e desemboca em uma espécie de ponte em que a delicadeza encontra o seu lugar, Quinta-feira consegue sugerir instantes de reflexão súbitos que logo interagem com a combinação entre o azedo e o agudo elaborados pelas guitarras da cena. Como a canção mais longa de Sons Da Rua, Quinta-feira combina a ardência, o swing e a leveza com audaciosas sugestões psicodélicas observadas durante a transição entre o solo e a ponte, mas que desaparece diante diante de um processo de finalização explosivo e embebido em inmdicações nítidas do rock alternativo em sua aparência cujo último suspiro sugere uma contemplação de brisas melancólicas. 


Vai muito longe do que se espera. O último dia letivo da semana tem a conotação de um momento alegre em que olhar para o relógio é algo inevitável. Mas não com o Mago Trio. Para ele, Sexta-feira começa densa, soturna, grave e com brisas de um sombrio surpreendente exalados pela lentidão com que a guitarra extrai os primeiros sinais melódicos. Depois que um golpe uníssono entre bateria e baixio é percebido, não demora para que a composição, como um todo, mergulhe em um cenário pulsante e de textura suja em razão do frequente golpear na superfície do chimbal aberto. Áspera tal como se conseguisse flertar com um metal thrasheado ao modo Metallica, Sexta-feira surpreende por colocar sob os holofotes o cinismo e o deboche sob vestes de conotação manipuladora. É curioso como o que aparentemente deveria ser registrado em uma terça ou quarta-feira é empurrado para a sexta-feira: o ruído, a poluição sonora, o cru e o bruto. Com um solo de guitarra de incinuações aéreas, Sexta-feira tem um fim seco, mas de nuances reverberantes que deixam o ouvinte com uma falsa expectativa, mas com o coração pulsante pela adrenalina censurada.


Não dá para começar uma elocubração a respeito do material sem mencionar que, em comparação aos trabalhos anteriores do Mago Trio, Sons Da Rua é aquele que, inquestionavelmente, mergulha no universo do rock como a sua base de desenvolvimento. Mais do que o esperado, o trio trouxe uma musicalidade ousada, mas muito mais focada na crueza e na brutalidade de um som de natureza especialmente urbana.


Claro que seria incorreto não dizer que o nordeste continua presente nas composições que formam o EP, mas ele não é mais o ingrediente principal e, sim, um tempero que realça os sabores proporcionados. De forró ao manguebeat e à presença de texturas que remetem brevemente ao xote, o material escolhe o denso ante a leveza, o áspero ante o açúcar, o bruto ante o delicado. O Mago Trio não se esqueceu ou abdicou de suas raízes, mas, nesse novo material, mostrou, com total consciência e noção de musicalidade, como elas podem agregar positivamente a mundos de aparências completamente heterogêneas. 


E tudo isso ganha ainda mais peso quando se percebe que cada instrumento é percebido tanto em conjunto quanto individualmente. Graças à mixagem de Albuquerque e Luan Lima, a qual resultou em uma sonoridade cristalina que encapsulou toda a pressão e o experimentalismo do trio, cada elemento instrumental tem a sua contribuição muito bem pontuada. Isso auxilia na percepção de um som consistente, maduro e forte para um projeto financiado pela Lei Paulo Gustavo, do estado de Pernambuco.


Fechando o aspecto analítico, vem a arte de capa. Assinada por Soraya Feitoza, ela evidencia esse mergulho em um novo ambiente explorado pelo Mago Trio. Desenvolvida com tinta acrílica sobre madeira, ela traz o tom preto como elemento majoritário, mas que perde protagonismo a partir da presença de um círculo em espécie de funil. Vermelho em sua maior parte, é como se ele, indiretamente, imitasse a figura de um furacão, o que casa com o presente trabalho, pois sugere agressividade, brutalidade e ao mesmo tempo cinismo por trazer momentos enganosos de calmaria.


Lançado em 30 de agosto de 2026 de maneira independente, Sons Da Rua é um EP instrumental em que o Mago Trio alça novos voos e mergulha no universo soturno, grave e áspero do rock. Destacando a sua versatilidade e a sua maturidade, o trio não abriu mão de suas raízes, muito menos a menosprezou ou diminuiu. O nordeste está no sangue. E para aqueles com ouvidos apurados, basta um acorde para identificar que a paisagem sonora nordestina continua presente - e muito.

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Sobre o crítico musical

Diego Pinheiro

Quase que despretensiosamente, começou a escrever críticas sobre músicas. 


Apaixonado e estudioso do Rock, transita pelos diversos gêneros musicais com muita versatilidade.


Requisitado por grandes gravadoras como Warner Music, Som Livre e Sony Music, Diego Pinheiro também iniciou carreira internacional escrevendo sobre bandas estrangeiras.