Tolga Tüyel - III

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Diretamente da Turquia, um novo nome se apresenta no cenário musical internacional. Tolga Tüyel, após anunciar três singles ao longo do ano, apresenta, enfim seu EP de estreia. Intitulado III, o material conta com produção e arranjo assinados por İlkay ÖZBOYAR e pelo próprio Tüyel.


Ao som do motor sendo ativado, a guitarra de Erdem KARAMAN invade a cena com um riff melodioso, mas perigosamente provocativo e libidinoso que incontestavelmente anuncia o hard rock como a base de sua estética. Com doses de atrevimento do toque aberto, sujo e reverberante do chimbal comandado por Cengiz TURAL, a faixa não só cresce como explode em uma segunda etapa introdutória lexicalmente estimulante agraciada por uma boa camada harmônica sugerida pelo dulçor agudo do teclado de İlkay ÖZBOYAR. Amplificando a sua própria voltagem para com uma roupagem que bebe da atmosfera oitentista de uma Sunset Strip noturna, a composição tem o seu enredo lírico devidamente vivenciado pela voz aguda e levemente aveludada de Tolga Tüyel. Trazendo consigo um frescor impossível de ignorar e uma leveza estonteante, a música é marcada por uma energia incandescente de liberdade e independência que transborda de cada acorde e cada tecla. De refrão macio, fluido e inquestionavelmente contagiante, Camlar Açık ainda conta com momentos em que o baixo de Serhat YILMAZ se mostra com mais evidência diante da paisagem melódica, desfilando um groove encorpado que entrega firmeza e densidade sem ferir na identidade branda que a obra transpira com tanta facilidade. Com um clima vernaista intenso e pegajoso, a faixa explora, liricamente, o senso de emancipação associado a um tom romântico que beira o arrependimento e meio às hipóteses do que poderia acontecer.


A guitarra surge em cena com um riff azedo e milimetricamente tremulante, o que acaba lhe sugerindo uma noção de movimento um tanto audaciosa desde o início. Com uma postura inquestionavelmente cínica, ganhando maturidade a cada nova repetição de sua melodia marcante, o instrumento vai oferecendo uma sonoridade baseada em um rock alternativo com grandes traços de semelhança em relação àqueles alcançados pelo The Black Keys em Lonely Boy, seu single de estreia. Rapidamente, é importante e interessante perceber que, em meio às suas contrações de caráter libidinoso, a guitarra recebe prontamente a companhia do baixo que surge desenhando uma base melódica nos mesmos moldes que seu riff. Com o adendo do tom naturalmente grave, a sonoridade, agora, se vê embebida em uma densidade que ganha ainda mais potência quando a bateria se apropria da base rítmica com uma levada firme, pulsante e suja. Quando o primeiro verso começa a ser construído, além do ouvinte ter a noção clara da presença de uma guitarra base na somatória instrumental, ele se vê diante de um timbre masculino afinado e de tonalidade aguda. Ele é usado para dar vida a uma interpretação verbal que sugere viciantes traços de um deboche completamente descompromissado. Levando Dönüşüm para um refrão que atiça o espectador em meio aos seus flertes estético-estruturais em relação à paisagem do hard rock, o cantor, apoiado no uso do autotune em grande parte da sua performance, o que garante uma textura levemente digital ao contexto sônico, vai demonstrando ousadia e autoconfiança ao manter o turco, sua língua pátria, como o idioma da composição. Garantindo instantes em que é capaz de se perceber um som adocicado, mas com traços ácidos, moldando a base sonora, a canção comunica que o teclado é aquele elemento que tampa as brechas ainda existentes com camadas de harmonia que a fazem crescer. Mas além da segunda guitarra, do baixo saliente e do teclado, há um fator primordial que eleva a obra a outro patamar: a letra. Colocando em xeque a realidade digital e expondo o consumo desenfreado das redes sociais, além de explorar o peso da sua presença na rotina social, a canção vem com a missão de incentivar o ouvinte a desplugar os olhos, os ouvidos e os sentidos da tela e viver o mundo à sua volta. Toda a energia, a intensidade e as milhares de oportunidades reais estão fora dos aplicativos e é para essa mudança de comportamento que Tüyel convida o ouvinte para um mergulho sem volta. 


A distorção surge com uma nuance opaca e tremulante que alcança imediatamente uma influência hipnótica sobre o ouvinte. Surpreendentemente, o que se segue é o nascimento de uma sonoridade não apenas áspera, mas grave e bruta que foge do tom melodioso explorado nas composições anteriores. Com menções de uma agressividade diretamente associada a um toque de cinismo intenso, a canção se desenvolve de maneira gradativa com o chimbal seco fazendo a contagem rítmica antes que o aspecto rítmico-melódico encontre uma atmosfera densa, intrigante e que transpira boas doses de um suspense inquietante. Experimentando uma cenografia metalizada, a canção apresenta versos líricos que caminham perante uma postura sorrateira que captura a atenção do ouvinte como se esse fosse transformado em uma espécie de vítima manipulativa. Sinistra, Sessiz Fırtına caminha por uma linearidade estético-estrutural que encontra uma base atmosférica durante o refrão que a torna minimamente entorpecente diante de sua identidade dramática. Com traços épicos audaciosos, a composição apresenta ao ouvinte um enredo lírico com mensagens de perseverança e determinação enquanto destaca um personagem em busca de propósito. Inclusive, é como se o solo de guitarra funcionasse como um sinal sonoro de transição entre o estado de desorientação e a aquisição da redenção.


Como um EP de estreia, tudo pode ser esperado. Desde escorregões estético-estruturais a presença de uma sonoridade em notável processo de amadurecimento, um material iniciante transpira uma identidade ainda em formação. Contudo, não é isso o que acontece com III. Diante de tal extended play, o ouvinte não apenas tem acesso a um conjunto de canções que  caminha por uma sonoridade consciente e madura, como apresenta uma identidade já muito bem desenvolvida.


Ainda que curto no que se refere à sequência de faixas, o EP, diante de seus três títulos, propõe ao ouvinte um caminhar por composições que exploram o terreno sensual e libidinoso de um hard rock com grandes influências da estética oitentista, mas não só. Existem momentos em que essa vertente do rock se funde a um rock alternativo moderno que recria a ambiência do início dos anos 2000 com um frescor marcante. 


Ainda que misture enredos líricos com mensagens de liberdade e independência, críticas sistêmicas relacionadas à cultura das redes e ao vício digital, além de menções psico-sensoriais, III é marcado por uma essência muito bem formada, algo alcançado graças ao auxílio do trabalho afiado e apurado do escopo técnico. Enquanto no que se refere à mixagem, ÖZBOYAR encontrou o equilíbrio exato para que todos os instrumentos tivessem participações não apenas perceptíveis, mas com contribuições comprovadas, na produção, ele conseguiu explorar os dois lados de Tüyel: o leve, debochado e descompromissado com o consciente e socialmente atento.


Fechando o escopo técnico, vem a arte de capa. Assinada por Özgüç Yiğit, ela traz o busto de Tüyel em evidência, abraçado por um plano de fundo inteiramente preenchido por um tom de preto intenso respaldado pelos títulos das três faixas na sua camada inferior, além do título do material grafado em vermelho. Com direito a traços falhados em que o branco é pincelado na totalidade da tela, a obra comunica, sem precisar verbalizar, a existência da harmonia invadindo o soturno. Um soturno que não se vende musicalmente, mas que pode ser traduzido em densidade, uma ideia que, proposital ou não, salva a arte por fazê-la interagir com o conteúdo sonoro.


Lançado em 28 de agosto de 2026 de maneira independente, III é um EP que, mesmo sendo de estreia, apresenta um cantor com consciência, maturidade e, acima de tudo, identidade muito bem formada. Marcado pela audácia saudável de não se render ao idioma inglês massificante e manter o turco natal na construção dos enredos verbais, o material serve como um chamariz, um mídia kit de um artista com potencial inegável para fazer barulho na indústria musical.

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Sobre o crítico musical

Diego Pinheiro

Quase que despretensiosamente, começou a escrever críticas sobre músicas. 


Apaixonado e estudioso do Rock, transita pelos diversos gêneros musicais com muita versatilidade.


Requisitado por grandes gravadoras como Warner Music, Som Livre e Sony Music, Diego Pinheiro também iniciou carreira internacional escrevendo sobre bandas estrangeiras.