
NOTA DO CRÍTICO
Ele se formou nos idos de 2012 nas imediações de Roma baseada na concepção de Alex Rotten. Porém, foi apenas depois de algumas mudanças em sua formação que, em 2017, o HoneyBombs anunciou Wet Girls And Other Funny Tales, seu álbum de estreia. Oito anos depois, o grupo italiano dá vida a There Is An Elephant In The Room, seu segundo e mais recente disco de estúdio.
Não existe qualquer dúvida ou questionamento a respeito do gênero musical-guia da composição. Afinal, desde seu início imediato, ela oferece ao ouvinte um lampejo trovejante com frases percussivas insistentemente quebradas pela desenvoltura da bateria de Andrea Pro, além de guitarras de riffs ásperos que, performadas por Alex Rotten e Dottor Gain, rasgam a atmosfera. A partir daí, se percebe a incursão rítmico-melódica da faixa em relação ao hardcore. De primeiro momento, inclusive, não qualquer menção de frescor. Há, sim, imponência, força e densidade através de uma sonoridade que transpira confiança. Surpreendentemente, porém, a guitarra solo se sobrepõe com sua desenvoltura, agora, audaciosamente aveludada e melodiosa, enquanto o restante do instrumental vai se enveredando, gradativamente, ao campo do hard rock. Ainda assim, é importante mencionar que, apesar de passar a transpirar ligeiras noções de sensualidade, a faixa, ao mesmo tempo, acaba transpirando características emocionais que beiram a melancolia e o drama. É preciso destacar, porém, que, conforme a introdução instrumental vai ganhando outros cenários, a composição, inesperadamente, consegue arrancar lágrimas do espectador em virtude da aquisição de uma beleza estética que combina brandura, nostalgia, frescor e veludo de uma forma bastante delicada. No instante em que o primeiro verso finalmente nasce, Living Among The Lies passa a ser guiada por uma voz masculina de caráter adocicadamente agudo com traços suavemente rasgados. Vinda de Andrew Skid, ela vem acompanhada de uma sonoridade aguda tão leve quanto a brisa que, trazida pelo teclado, acaba preenchendo os espaços restantes com uma harmonia de caráter doce e floral. Quando o refrão estoura com sua estrutura lexicalmente melódica, enquanto o baixo de Luke Vanilla desfila pelo cenário com seu groove de caráter azedo e levemente estridente, rompendo os lapsos de torpor incentivados por um quase excesso de dulçor, Living Among The Lies evidencia sua exploração lírica perante a desilusão e a necessidade de uma verdade denotativamente autêntica. Nesse sentido, é fácil perceber a angústia do protagonista em se ver ao se perceber no entremeio da sua verdadeira essência e da visão que os outros, dele, possuem. Em suma, é uma canção de superação do passado e sobre renascimento. Um renascimento associado ao mais puro processo de autoconhecimento.
O drama, nesse novo cenário, vem em sua forma mais rascante e lancinante. Ainda que sob uma sonoridade melódica, a atmosfera se mostra sombria e umedecida por uma chuva de água ácida e corrosiva. Trazendo consigo, portanto, uma tristeza visceral, a forma como as guitarras se combinam insere, no ambiente, generosas e pegajosas doses de angústia e lamúria. Um desolamento tão pungente que acaba incentivando, inclusive, um senso de profunda desmotivação. De introdução generosamente mais curta do que aquela ofertada na faixa anterior, o presente título, do momento em que tem seu primeiro verso iniciado, explora um arranjo baseado na cenografia do metalcore, o que acaba engrandecendo em demasia a sensorialidade visceral e rascante. Importante ressaltar que aqui, inclusive, Vanilla explora vertentes de seu timbre que exortam uma natureza ligeiramente mais azeda, inserindo, assim, mais densidade ao ecossistema. Além disso, há algo nesse arranjo que sai um pouco do padrão. Se as guitarras não falassem por si, a bateria seria suficiente para exortar a emoção que preenche a composição. Isso porque a desenvoltura do instrumento transpira desespero e um ligeiro descompasso que salienta um latente desequilíbrio sensorial. Não é à toa que Astenich traz um enredo marcante por evidenciar um indivíduo em constante conflito com seus próprios demônios represados no seu inconsciente. Demônios esses que atormentam a alma através da difusão de sensos de medo que despertam um grau de remorso capaz de colocar o indivíduo na iminência da dúvida do que é real e o que é fruto de sua própria alucinação.
Um coro gutural recebe o espectador como se fosse uma conjuntura de vozes angelicais penetrando o mais íntimo do indivíduo. Com sua beleza espectral e até mesmo transcendental, essa união de vozes, em seu tom gutural e de viés catedrálico, dá ao ouvinte a ideia de ascensão para um mundo espiritual completamente elevado no que tange as qualidades de bondade, compaixão, respeito e igualdade. De certa forma, é como se o ouvinte fosse cordial e ternamente convidado a experienciar a utopia da terceira dimensão. Do mundo das almas. Surpreendentemente, aquela calmaria inicial dá lugar para punchs sonoros uníssonos entre guitarra e bateria que serve simplesmente como a verdadeira introdução da composição. Levando o ouvinte para um ecossistema que se permite transitar, de maneira versátil, entre o hard rock e uma base rígida de power metal, a faixa traz uma boa combinação de sons que vai do áspero-agudo da guitarra, o azedo-estridente do baixo e o agudo-gélido-transcendental do teclado. A partir daí, se percebe um equilíbrio entre todas as camadas da música. Desde o ritmo até a harmonia, Feels Like Heaven é regida por um instrumental maduro e consistente que acompanha, entre requintes de dramaturgia, um viés motivacional que incita o ouvinte a viver os dias como se fossem o último. Apesar de soar fúnebre, a ideia é experimentar cada momento da forma mais intensa e visceral possível. Aderir a cada nova vivência para não sofrer com culpas e eventuais remorsos. A partir daí, é até possível de se capturar a ideia da alforria do passado em meio à maturidade emocional que permite ao protagonista dar uma nova chance à vida.
É como estar caminhando por entre um terreno enlameado. Estar agraciado por um céu cinza sem vida e com menções de uma chuva de caráter melancolicamente lacrimal. Sob um chão úmido e pegajoso, não há textura alguma que faça surtir um mínimo de conforto. O interessante, porém, é perceber que a forma com que o vocalista vai desenhando o enredo lírico assume um viés introspectivo que, ao primeiro contato com a afinação da guitarra, vai adquirindo um toque de esperança. A partir daí, não é de se espantar que, no horizonte daquele cenário caótico e abissal, feixes de luz invadam tal atmosfera injetando raios de uma luz apaziguante e transcendental. Essa cenografia imagética é favorecida, principalmente, pela interação entre a forma introspectiva com que o vocalista interpreta o enredo lírico e a delicadeza suspirante das notas difundidas pela guitarra. Evidenciando sua natureza frágil e vulnerável, é como se a obra dissecasse o personagem e expusesse as suas inseguranças mais profundas. Porém, assim como foi levantado anteriormente, a própria composição, em seu movimento instrumental, marca uma espécie de ascensão rumo à redenção. Isso acontece porque, gradativamente, bateria, piano e baixo vão criando uma sinergia sensorial tão compassiva que soa como se um instrumento apoiasse o outro como prova de pura camaradagem. Melancólica, mas com um final cheio de esperança, Hidden In Me captura o protagonista lutando contra seus próprios demônios enquanto se permite entrar em uma intensa busca não apenas por redenção, mas uma forma de ressurreição de suas próprias sombras.
É como se um oásis fosse avistado ao longe em meio ao deserto escaldante. Afinal, em meio a tanta densidade e camadas sonoras bastante elaboradas, escorregar em um ambiente solar que permite a adesão de um senso de leveza e tranquilidade soa como um perfeito bálsamo. Estruturalmente misturando o viés melódico-sensual do hard rock com a atitude e a crueza do punk, a canção vem se fortalecendo como a primeira obra de There’s An Elephant In The Room a ter um viés mais radiofônico. Porém, é importante ressaltar que, aqui, não existe, necessariamente, um apelo comercial. É só o fato de a arquitetura da canção trazer uma sonoridade mais aberta e acessível às massas. Ressaltando o pedal duplo da bateria como uma importante assinatura do HoneyBombs, a canção, portanto, traz bastante precisão rítmica. Enérgica e excitante, Spit On You, como a própria adoção do punk sugere, é uma composição rebelde e anti-consumista. Se mostrando contrária à toda luxúria e cultura classicista venerante, a obra é como um hino anárquico em relação ao imperialismo do dinheiro, da ganância e do materialismo. Eis aqui, portanto, um exemplo do renascimento de Alexander Supertramp.
Uma nova roupagem se apresenta. Misturando noções do sombrio e do místico com a densidade do metal e os trotes concisos e sequenciais dos pedais duplos, é interessante ver como a presente canção consegue despertar, facilmente, ímpetos de insegurança e tensão no ouvinte. O interessante é que, quanto mais evolui, mais sombria a canção se torna, o que permite à guitarra assumir uma postura gradativamente rebelde e até, de certa forma, petulante. Evoluindo de forma a mergulhar o ouvinte em uma camada sonora puramente dramática, a composição, através de sua silhueta alt-metal, consegue caminhar atentamente entre as sombras do submundo e o fogo ardente da raiva e do ódio. Em Berserk, porém, existe um ponto inconveniente. Pela primeira vez até então, o tratamento para com a sonoridade apresenta uma quebra em seu padrão, tendo a mixagem falhado brevemente no trabalho de atenção à linha vocal, a atribuindo uma sonoridade crua que beira a estridência. Ainda assim, a faixa se vale pela energia dramática e repleta de desalento e até mesmo desamparo. Um viés interessante, já que, em suma, a obra trata do instante em que o personagem se vê nas suas profundezas mais densas de seu próprio estado de vulnerabilidade emocional, cenário em que se permite vivenciar seus ímpetos mais vis. Impiedoso, raivoso e odioso, o protagonista se vê temeroso em relação à sua própria essência. À sua própria capacidade de dar à crueldade a chance de manipulá-lo ao seu bel-prazer. É assim que Berserk discute e questiona, portanto, a fé e a existência de um ser maior zelando pelos sofrentes do mundo terreno. E é justamente nesse aspecto que o protagonista se vê sozinho e órfão. Ausente de representatividade e acolhimento, ele se vê refém de si e completamente desacreditado.
É como o batimento do coração ecoando pelo ambiente e sendo perfeitamente audível pelo silêncio externo absoluto. De maneira indireta, porém, tal despertar faz com que o ouvinte imediatamente rememore o iniciar de With Arms Wide Open, single do Creed, em virtude de sua mesma roupagem percussiva extremamente minimalista. Conforme se desenvolve, porém, a presente canção vai se aventurando por um cenário envolto em delicadeza, mas de caráter intrigantemente fabulesco. Embebida em uma fragilidade fresca e levemente dramática, a faixa, através dos sobrevoos mansos e compassivamente aveludados dos violinos representados pelo teclado, consegue proporcionar uma ambiência de senso etéreo a ponto de ser quase transcendental. Interessante é notar que, através de sua sonoridade branda, Ocean In A Drop reflete, através de sua estrutura puramente instrumental, uma bem-vinda calmaria que soa como a representação melodiosa do olho do furacão. A faixa, portanto, funciona como um bálsamo de leveza e suavidade diante de tanta densidade sócio-emocional oferecida até então em There Is An Elephant In The Room.
Ela é doce, mas ao mesmo tempo, dramática. Podendo ser empregada também a palavra pungente, a canção consegue, durante a sua introdução, inserir uma mistura equilibrada de dulçor e torpor. Dando passagem para um primeiro verso nascido através de um lirismo interpretado de maneira inquestionavelmente introspectiva, a canção se desenvolve através de um minimalismo estrutural capaz de envolver o espectador em uma atmosfera ligeiramente céltica. Aquém dessa percepção, Awareness Birth ainda se assimila, esteticamente, ao arranjo melodramático de This I Love, single do Guns And Roses. Sob esse desenho conjuntural, portanto, a presente faixa é marcada por certo grau de melancolia que acompanha o ouvinte em meio a uma agonia entorpecente que abraça a caótica dualidade de personalidade. Janie e Grace nas formas metafóricas do dia e da noite, da vida e da escuridão pegajosa da tristeza. Eis que a faixa se configura, portanto, como o estudo do próprio protagonista sobre qual de seus dois lados impera sobre o outro, o fazendo perceber que a melancolia, em sua forma mais mórbida, detém o comando de sua essência.
Transcendental e etérea. Essas podem ser encaradas como as primeiras percepções da estética da canção que se desenvolve em meio a um escopo melódico brando. Se deleitando por uma delicadeza açucarada de brisas sinteticamente ácidas que beiram o folclórico, a canção, graças ao vaivém da contribuição do teclado, funciona, curiosamente, como uma espécie de elevação do espírito para um ambiente tão utópico quanto aquele de Feels Like Heaven. Experimentando requintes ásperos vindos da distorção da guitarra como forma de amplificar a sensibilidade do ouvinte em relação ao esotérico, Ascension vai evidenciando certo grau de virtuosismo do referido instrumento, ao passo que ele desfruta de suas performances ondulantes hipnóticas. Conforme a obra vai assumindo, gradativamente, um viés pungente de power metal, as frases brutas voltam a moldar a base rítmico-melódica de forma a romper com o torpor até então enaltecido. De lirismo interpretado de maneira fria no que tange uma proposital ausência de emoção, a canção mergulha em um refrão em que frases de ordem são entoadas em coro enquanto um timbre azedo, em sua forma mais léxica, preenche a dianteira vocal. Com essa receita, Ascension segue a mesma linha narrativa de Awareness Birth, uma vez que ela também lida com certo conflito de consciência entre seus ímpetos de naturalidades associados às figuras de Deus e Demônio. São as inclinações para o bem e para o mau mais uma vez rendendo uma batalha épica pelo inconsciente do personagem, enquanto ele se vê na pura agonia e simultânea incerteza pelo seu próprio merecimento de redenção.
O power metal vem à toda a prova desde a introdução imediata da obra. Regida por uma bateria pulsante em meio ao seu uso incessante de pedais duplos, a guitarra solo se apresenta através de um riff melódico, mas cheio de lamúria. De voz rasgada como se em uma performance que assumisse um personagem de essência mais cruel, o vocalista faz com que a atmosfera seja agraciada por ligeiros requintes de uma espécie de agressividade controlada. Conforme a composição se desenvolve, porém, estética e estruturalmente ela acaba se arregimentando como uma expoente da seara do metalcore em virtude da mescla entre aspereza e uma melancolia cheia de angústia. De refrão cuja harmonia providenciada pelo teclado sugere um súbito de redenção, Insane’s Mind continua com o viés narrativo linearmente iniciado em Awerness Birth ao mostrar, de forma concreta, a opção consciente de o personagem dar preferência, e, portanto, controle de si à sua essência melancólica. Sem um forte elo com a realidade em virtude da ausência de motivação, o protagonista se vê até mesmo indiferente em relação do término precoce de sua vida como forma de encerrar rapidamente o seu senso de desgosto.
Seu início é marcado pelo efeito fade in. Com o riff da guitarra tomando um corpo gradativamente maior, a natureza sensual, mas com requintes de aspereza, da canção, vai sendo rapidamente evidenciada. Retomando o hard rock estacionado em Spit On You, a canção se desenvolve através de um andamento mais lento de forma a dar ao ouvinte a capacidade de também identificar os pulsos do baixo no decorrer da evolução melódica. Dramática em sua essência, Falling Water acompanha o personagem criando forças para se libertar de sua natureza autoinflingente e conseguir acessar sua força interior no intuito de caminhar, com mais autoconfiança, o caminho rumo ao seu amadurecimento, o qual, invariavelmente, o levará para a paz de espírito tanto idealizada.
O instante introdutório imediato dá ao ouvinte uma percepção súbita de se tratar de uma canção que se embrenha perante o terreno de um heavy metal flertante com o doom metal ao estilo Black Sabbath. Porém, rapidamente a obra se transforma em um hard rock mais metalizado e denso com boa fruição harmônica graças ao teclado. Potente, mas ao mesmo tempo visceral e rascante, a canção se desenvolve através de um escopo instrumental unissonamente pulsante que acompanha a sinergia entre vocalista e backing vocal a tal ponto que faz nascer um viés não apenas dramático, mas com uma pitada de angústia. A partir daí, Thanatophobia apresenta um diálogo aterrorizante que apresenta um personagem com medo da morte. De certa forma, através dessa temática central, a canção, além de destacar a fragilidade humana quando posta em contato direto com seus temores mais vis, traz consigo a ideia da batalha perante o desconhecido através da negação e aceitação da vulnerabilidade diante do destino iminente.
Seu início já é marcado por uma paisagem densa e com generosas menções de intensidade. De caráter incendiário, mesmo que aparentemente controlado, a canção vai expondo seu viés explosivo de maneira gradativa, algo possível de se constatar graças à performance da guitarra ao lado da bateria. Sombria e com noções nítidas de um bruto cru, quanto mais se desenvolve, mais evidência do caos a composição propaga. No instante em que a segunda metade introdutória se instaura, a obra acaba transpirando uma roupagem mais impiedosa e impositiva. A partir do ritmo, a canção passa a caminhar pelo terreno estrutural do hardcore, mas de forma mais violenta. Com nítidas menções de agressividade notadas através do blast beat assumido pela bateria, Lothario Foppish se evidencia como a canção mais densa, crua, bruta e agressiva de There Is An Elephant In The Room. Surpreendentemente, até mesmo o cantor assume uma tomada interpretativa mais ácida e rasgada, provando uma vez mais sua versatilidade e consciência vocal. Ardida, raivosa e impiedosa, a faixa se consagra como uma expoente mais madura do metalcore enquanto traz consigo um lirismo que decodifica a figura de um ser de aparência maligna agindo sobre o indivíduo como sua própria marionete em um claro ato de manipulação e consumição do senso de individualidade. No entanto, é importante ressaltar que, nas entrelinhas desse enredo, o HoneyBombs acaba criticando com grande ênfase a inclinação social em relação ao senso de ambição, o qual tal entidade maligna se apoia para ludibriar e conquistar suas vítimas.
Explosiva e áspera, mas não tão agressiva quanto a anterior, a presente faixa, assim como muitas outras ao longo da track list, destaca o uso intenso de pedais duplos na bateria. A partir daí, uma vez mais se destaca o groove metal também como um dos ingredientes estéticos tanto do álbum como um todo quanto da presente composição especificamente. Equilibrada entre as camadas do baixo e da guitarra, a canção, sonoramente, parece explorar o limiar existente entre a agonia e o senso curioso de redenção. Dramática em meio à sua intensidade visceral, a faixa, assim como aconteceu em Berserk, apresenta a mesma falha no trabalho da mixagem. Afinal, também aqui a linha lírica soa estridente e destoante do restante da equalização instrumental. De natureza melodramática saliente, Pavor Nocturnus explora outra experiência diagnosticável em relação aos medos. Tal como Thanatophobia, que estudou com afinco os efeitos do medo da morte, aqui o HoneyBombs acaba trazendo aos holofotes a discussão do terror noturno ou, como também é conhecida, paralisia do sono. Disseminando toda a agonia dilacerante em perder subitamente os movimentos enquanto na presença, imagética ou não, de uma presença intocável, a canção se torna pungente por mostrar que, nesses casos, existem medos mentais e físicos que se unem, tornando tal vivência um tormento psicológico profundo.
O sonar tilintantemente adocicado e agudo que puxa com singela delicadeza a introdução sugere uma música de ninar. De essência calmante, portanto, bastante serena, ela traz consigo um curioso viés lúdico que impregna toda a atmosfera. Surpreendentemente, porém, assim que o primeiro verso se inicia, o teclado entra em cena por entre notas entoadas duplamente, causando uma imersão sensorial no campo do drama de maneira bastante latente. Com um caráter um tanto alucinante em virtude da interpretação lírica de veia fria e até, de certa forma, paralítica, a canção convida o ouvinte a mergulhar, cada vez mais, em um senso de torpor que esconde certas angústias. Felizmente, o personagem parece ser capaz de pedir por ajuda na ânsia de se desvencilhar desse teor melancólico pegajoso. Adquirindo outro nível de dramaturgia assim que o minimalismo dominado pelo teclado dá lugar a pulsos uníssonos entre guitarra e bateria, Antinomy dá pistas cada vez mais claras de sua natureza desesperadora. Um desespero incontrolável vivenciado pelo protagonista na sua busca insana por alguma motivação que o mantenha interessado pela vida. Um significado, um propósito que o faça, de alguma forma, se sentir útil em meio a tanta turbulência emocional.
Para começo de conversa, é preciso dizer que There Is An Elephant In The Room se configura como um álbum complexo. Complexo em suas camadas instrumentais, complexo em suas linhas vocais. Porém, o que mais chama a atenção do material como um todo é a linearidade de suas narrativas girarem em torno do sombrio e do temeroso com tamanha naturalidade.
Através de terrenos rítmico-melódicos que saem do veludo, mas também transitam entre o sintético, o adocicado, o denso, o potente e o bruto, o álbum definitivamente desenvolve uma linha de raciocínio que preenche toda a sua track list com ligeiras mudanças. Sempre destacando a agonia, a angústia, a melancolia e o desespero como emoções motrizes de seus diálogos verbo-sonoros, ele se desenvolve através das sombras, do extrassensorial.
Da depressão à necessidade de redenção e superação, o álbum coloca em evidência um personagem lutando contra seus próprios ímpetos, suas próprias naturezas abomináveis. Duelando entre a bondade e a maldade, o personagem se vê em complexos conflitos de consciência que chegam a até convalescer o espectador.
Ainda que esse enredo seja majoritariamente marcante no decorrer do álbum, é importante salientar certos títulos que fogem um pouco a essa regra. Esteticamente, se destaca Lothario Foppish, faixa que se envereda mais profundamente pela paisagem mais áspera do hardcore, chegando a flertar até mesmo com o death metal.
No que tange o enredo lírico, porém, outros títulos merecem destaque. Thanatophobia e Pavor Nocturnus dialogam, com certa delicadeza e senso de humanidade, mas sem fugir do viés agoniante que tanto marca a sonoridade do HoneyBombs, as faixas dialogam, respectivamente, sobre o medo da morte e a paralisia do sono. Nessas obras, o grupo acaba explorando o terror psicológico com bastante destreza.
Para dar uma espécie de vida sonora a esses enredos tão marcantes, o grupo se aliou a importantes integrantes na atividade de destacar a complexidade musical presente no álbum. Riccardo Studer e Giuseppe Orlando, além de serem os responsáveis pela produção, também agiram como engenheiros de mixagem.
No quesito da produção, como já foi levantado, o álbum é marcado por uma narrativa linear que envolve o ouvinte através de uma essência dramática e pungente que transcende os limites do som. Porém, mesmo aqui existem ressalvas necessárias a serem feitas para o melhor aproveitamento futuro.
Ainda que em títulos como Spit On You o HoneyBombs ofereça um diálogo diferente dos demais, se baseando, aqui, no contexto sócio-comportamental-cultural da ganância e do materialismo; e Ocean In A Drop, que traz um instrumental frágil e fresco, o álbum acaba se tornando redundante e mais-do-mesmo por focar sempre no mesmo ponto de vista de um majoritário mesmo assunto. Trazendo os conflitos de identidade sob diversos alicerces, poderia There Is An Elephant In The Room ser concebido com uma track list mais enxuta, favorecendo, assim, uma experiência sempre desafiadora ao ouvinte.
Já no que tange a mixagem, a dupla foi responsável por salientar a versatilidade musical do HoneyBombs, destacando uma gama de abrangência estética bastante ampla, a qual abrange o hard rock, o power metal, o hardcore e o metalcore. No entanto, existe um ponto que precisa ser salientado. Também no que se refere à mixagem, Studer e Orlando aparentemente falharam em tal atividade. Principalmente em títulos como Berserk e Pavor Nocturnus, a camada lírica oferece um áudio bastante estridente que destoa do restante da sonoridade do instrumental.
No geral, no entanto, a impressão que se tem é que a sonoridade final poderia estar mais no primeiro plano, ocasionando em uma experiência ainda mais forte e potente do que o álbum já oferece. Ainda assim, tal aspecto não interfere em demasia na aventura auditiva do ouvinte.
Encerrando o escopo analítico de There Is An Elephant In The Room, vem a arte de capa. Assinada também por Rotten, ela evidencia a imagem de um grande elefante cujas orelhas têm a forma de grandes asas de harpia. Essa figura quase mitológica vem como a representação de uma espécie de guardião do submundo que recebe a chegada de um indivíduo em trajes que remetem a época pré-homérica. Importante destacar, porém, que acima do caos, a ilustração traz um céu azul e límpido, fornecendo a clara dualidade entre as trevas e a ideia de redenção.
Lançado em 14 de março de 2025 de maneira independente, There Is An Elephant In The Room é um álbum agoniante que narra a trajetória de um indivíduo em constante conflito com seu universo inconsciente. Trevoso, sombrio, bruto e até agressivo, o álbum oferece uma experiência sonora angustiante e desesperadora em virtude de sua natureza vulnerável em relação ao bem e o mau. Em contraponto, ele soa tocante por mostrar a busca desenfreada de seu protagonista por redenção. Em suma, portanto, o álbum é a pura representação da fragilidade da mente humana.