NOTA DO CRÍTICO
Formada em uma São Paulo capital dos idos de 2019, o quarteto Gatos de Apartamento, que já traz consigo uma discografia vasta com direito a seis singles autorais e um cover, além de um EP ao vivo e um álbum, caminha para um novo estágio de sua trajetória. Agora, ele apresenta à indústria musical Entre As Canções E As Dores, seu segundo disco de estúdio.
O primeiro sabor que se tem na entrada da composição de abertura é agridoce e encorpado, mas marcado por um palato bastante agradável. Colocando, de imediato, Fábio Pelissioni nos holofotes com seu timbre de base adocicado, a canção é pautada por uma singeleza extasiante adornada por uma suave dose de frescor. Estruturalmente delicada e aromática, a canção mostra a existência de uma sintonia graciosa entre as guitarras, as quais são governadas tanto por Pelissioni quanto por Feeu Mouchachen. São elas, especificamente, que dão um tom suspirante e, ao mesmo tempo, amaciado à composição, que, sem demora, desemboca, de maneira orgânica e fluida, em um refrão que ganha a dose ideal de encorpamento e densidade. Fornecidas pelo baixo de Luis Beraldo, essas qualidades logo se fundem ao dulçor de natureza psicodélica do sonar do mellotron muito bem reproduzido pelo teclado de Shane Hardwicke, instrumento que fornece uma textura ao mesmo tempo aveludada e pegajosamente melancólica. Cheia de quebras rítmicas, o que sugere uma boa noção de movimento por simplesmente não se manter em um mesmo compasso percussivo, Jaula 6 (Samsara Boy) mistura uma MPB ao estilo de Arnaldo Antunes com uma modernidade sônica que propõe a fusão de sonoridades inerentes aos terrenos tanto do indie rock quanto de um rock alternativo de essência latina. Com direito a ímpetos de agonia e de um desespero difícil de se controlar, a obra traz consigo uma narrativa com uma sacada inteligente em metaforizar o inconsciente com a imagem de cadeia como forma de aludir à ideia propriamente de clausura, de necessidade da desconexão do mundo, da gritante busca pelo reequilíbrio. É a superação do desamor introduzida de forma lúdica e capaz de destacar a fragilidade do ser humano.
Com início marcado por um pulso uníssono entre a bateria e a guitarra, a canção caminha para uma frase de estrutura rítmica precisa agraciada por uma textura áspera curiosamente contagiante. No compasso 4x4 e mesmo com poucos elementos, a composição consegue contagiar e estimular o ouvinte a se entregar a uma energia interessantemente sensual, cujo horizonte apresenta vislumbres de uma sedução ainda maior. Ainda que mantenha a mesma estrutura rítmico-melódica durante o primeiro verso, a faixa deposita, na cadência e no conteúdo lírico fornecido pelo vocalista e seu timbre afinado em meio às suas nuances aveludadas, a possibilidade de oferecer boas noções de movimento. Com direito a instantes pontuais em que a faixa lírica é agraciada pelo apoio de uma voz feminina de caráter levemente doce, a qual se mostra na posse de Paula Indalecio, a faixa chama a atenção por misturar sensos de uma espécie de melancolia fresca envolta em uma camada sedosa de nostalgia. Inclusive, conforme cresce e ganha novas camadas, que, aqui, se soma principalmente o pandeiro, elemento que dá um charme levemente mais sensual à paisagem sônica, a composição tem parte de seu espaço restante preenchido por uma cama aromática e adocicadamente sintética que permite, além do torpor, um toque de aconchego extasiante. Com essa arquitetura estético-estrutural, Formidável é uma canção que, ao apresentar um indivíduo imerso em suas fraquezas e carências emocionais, se percebe em meio a um cenário em que suas vontades e interesses são censurados, marginalizados e, até mesmo, ignorados. Deixando, então, que a frieza seja uma espécie de autodefesa a um sofrimento inevitável, ele se dá conta que a sua natureza foi ofuscada. E a mensagem principal de Formidável mora nesse quesito. Entre rimas pobres que auxiliam a sua assimilação pelo ouvinte, a canção simplesmente incentiva o espectador a manter, escancarar e proteger a sua verdadeira essência.
A bateria de Paulo Canosa, a partir de uma frase quebrada, é o elemento responsável por moldar os primeiros instantes introdutórios da composição. Seguido do vibraslap, elemento percussivo capaz de fornecer uma textura trepidante brevemente reverberante, o instrumento segue seu andamento conforme brinca com alusões a paisagens sônicas de cunho nordestino. Ao mesmo tempo, a guitarra, com seu andamento pulsante, propõe fundir, a tal contexto, vislumbres do reggae e sua sensualidade sincopada característica. De base melódica bojuda, a canção rapidamente permite o despertar da desenvoltura lírica e, com ela, uma nova âncora que lhe confere a noção de movimento. Durante esse processo, inclusive, a harmonia tem seus instantes de breve protagonismo, quando o teclado invade a cena com uma sonoridade adocicadamente ácida pertencente ao hammond, conferindo, à canção, uma nova perspectiva sônica. Com direito a brisas de rock alternativo pinceladas pela guitarra, Skasso, apesar de sua postura expansiva e energia convidativa, traz um conteúdo lírico que permite ao ouvinte ter diversas linhas interpretativas. De primeiro momento, parece se tratar de um personagem em busca de pertencimento, ou, ainda, de algo que lhe confira autoconfiança. De outro, pode ser a busca pelo respeito e por um lugar sem distinções, em que todos têm a mesma importância e são percebidos de igual forma. Porém, uma terceira via dá a ideia de um personagem desistente, que, literalmente, se entregou ao mar por estar simplesmente cansado de não ser compreendida em um mundo que não lhe dava valor.
Existe, aqui, uma espécie de valsa aromaticamente hipnotizante, embriagante e melancólica pairando livremente pelo ar de forma a trazer consigo nuances de uma tristeza introspectiva e pegajosa fornecida pela aparência doce e aveludada de um teclado que reproduz, com exatidão, a essência do mellotron. Na forma de uma fábula intimista, a faixa forma, à sua frente, um horizonte de beleza singular de um sol poente em cuja iluminação, refletida no mar em meio ao seu azul celestial, traz consigo um tom reflexivo tocante e pungente, ainda que embebido em uma notável delicadeza. Crescendo estruturalmente, mas sem sair de uma espécie de linearidade harmônica, a composição se pauta em uma identidade sônica suspirante que aumenta ainda mais a sua postura pensante. Capaz de rememorar o som alcançado e difundido pelo Skank, com especial menção ao seu respectivo single Dois Rios, a faixa fornece uma participação imprescindível do baixo. Entre seus sobressaltos bojudos, o instrumento, além de fornecer consistência à sonoridade em desenvolvimento, faz com que a firmeza seja uma qualidade presente na receita estrutural da obra, tornando, especialmente o refrão, em um instante rascante capaz de fazer das lágrimas o reflexo do lamento, da decepção e, principalmente, da culpa. Dito isso, Sem Disfarçar é uma obra que traz o tempo ao mesmo tempo como coadjuvante e vilão, enquanto a consciência vem como o protagonista e, também, um mártir. Afinal, é ela que puxa o pesar pelos atos não feitos, pelas realidades não mantidas. Pela ditadura do orgulho ante a humildade do aceite do erro. E a dor do irreversível se reflete no ponteiro de um relógio cruel que não para de tiquetatear, fazendo do presente um passado distante e cheios de ‘e se’.
Desde seu início, a sonoridade que rege a sua paisagem sônica introdutória sugere a chegada da primeira balada oficial de Entre As Canções E As Dores. Com direito a guitarras que se combinam de forma a alcançarem uma melodia denotativamente melancólica, a canção sugere uma maciez e um andamento sonoro que, por alguns instantes, chega a rememorar, curiosamente, a sonoridade obtida pelo Paralamas Do Sucesso em Aonde Quer Que Eu Vá, seu respectivo single. Introspectiva e dramática, mas sem se esquecer de uma interessante inclinação de ternura na forma como explora essa energia entristecida, a faixa, ainda que se paute em um andamento rítmico de natureza um tanto linear, consegue entorpecer o espectador em razão da essência reflexiva expressa em tons de lamúria e culpa em cada palavra pronunciada por Pelissioni. Nesse aspecto, é interessante se atentar no movimento instrumental. Afinal, naqueles momentos em que parece que o personagem não mais aguenta segurar ou introjetar uma dor que já alcança a superfície do próprio corpo, as guitarras explodem em um uníssono áspero, junto aos pulsos dramáticos da bateria, como forma de desabafar ou, ainda, fazer das lágrimas os gritos há muito represados. Não é à toa que O Mesmo Tempo, ingerindo novamente a estrutura lírica pautada em rimas pobres, narra a vivência de um término iminente. Do rompimento mal-digerido. Eis, aqui, uma canção visceral que se apoia no conceito da superação.
É interessante como o andamento da bateria, com seus golpes precisos, consegue, por si só, sugerir uma agradável noção de contágio e sensualidade. Estimulante, aromática e saborosa em razão de seu toque adocicadamente floral, a canção se destaca por fornecer brisas estridentes e ríspidas sem interferir em sua fragilidade estrutural. De compasso sincopado e uma fragilidade muito bem defendida pelas leves presenças do teclado no contexto sonoro, a canção tem, em si, uma identidade marcada por uma postura brevemente suspirante que encontra certa fluidez na cadência vocal. Agraciada por um andamento rítmico linear, Ruas De Pedra se vale por trechos específicos do refrão, momentos em que texturas ácidas e golpes vivazes lhe entregam vivacidade, mas, principalmente, intensidade. Equilibrada, portanto, entre o torpor e o altivo, a canção é um perfeito retrato de um personagem que, preso em sua sede de superação, acaba se perdendo de suas próprias essências. De suas origens. Uma canção que guarda, em suas entrelinhas, um indivíduo vivendo seu próprio processo de autoconhecimento.
Ela não é marcada apenas pelo conceito do aromático. A canção, a partir do movimento amaciado do violão, é presenteada pelo frescor, pela delicadeza. Nesse sentido, é curioso perceber que cada riff desenvolvido pelo instrumento soa como uma dose dupla de nostalgia e melancolia, o que torna a paisagem não apenas entorpecente, mas curiosamente aconchegante. Frágil, suspirante e aromática, a canção, quanto mais se desenvolve, mais destaca o veludo como seu principal aspecto sensorial. De nuances encantadoramente introspectivas e valsantes, Vestígios acaba tomando o posto de O Mesmo Tempo e adquire, para si, o título de principal balada de Entre As Canções E As Dores. De postura gentil e cuidadosa, a presente canção é, ao contrário de Ruas De Pedra, uma canção que verbaliza a busca pelo autoconhecimento. Uma obra que mistura as menções de pertencimento e a compreensão da própria essência. A motivação, o propósito. Questões que explicam o rumo da vida e auxiliam na compreensão da existência individual do personagem.
Não existe contestação. Argumentos que sejam contundentes o suficiente para desmontar o argumento de que o ouvinte está na iminência de adentrar em um universo pura e exclusivamente dramático. Ainda que aromático e com notas de um curioso e gélido frescor, o andamento harmônico-melódico ofertado pelo teclado sugere um sentimentalismo profundamente pungente e, portanto, emotivo. Como a canção mais longa do disco, Rapsódia Do Vento faz com que o ouvinte se aventure pelo visceral, pelo rascante. O força a se olhar no espelho e enxergar as próprias fragilidades e carências. Tal como observar, da janela, os galhos das árvores valsando no compasso da batuta de um vento de outono, o espectador se percebe capturado por um sentimentalismo reflexivo-melancólico capaz de lhe tirar, por alguns instantes, a sua própria lucidez. Ganhando precisão com a entrada da bateria e uma ênfase ao dulçor firme do timbre de Pelissioni, a canção destaca, inclusive, nuances de uma crueza capaz de tornar ainda mais orgânicas as emoções expressas tanto pela interpretação lírica quanto pelos sobrevoos vocálicos dos backing vocals. Misturando o motivacional com o visceral, Rapsódia Do Vento apresenta dois contextos sônicos diferentes por ser montada em dois capítulos. Enquanto o primeiro esboço é, de fato, mais dramático, o segundo explora mais o senso de esperança e determinação. De resiliência. É assim que o Gatos de Apartamento conta o processo da libertação do sofrimento, das lentes monocromaticamente cinzas, para um movimento de se permitir ver o mundo tal qual ele é e, acima de tudo, se respeitar ao se dar o direito de uma segunda chance.
Entre As Canções E As Dores bebe da seara daquilo que pode ser pautado no modernismo da MPB. Ainda que suas roupagens misturem influências externas com outras que, invariavelmente, tragam consigo identidades propriamente latinas, o disco é a prova não apenas da capacidade, mas da sensibilidade do Gatos de Apartamento em combinar reflexão, introspecção e esperança em um movimento que vai das sombras à luz.
Nesse âmbito, não surpreende que existam diversas canções que tenham entre seus assuntos-chave o término, a separação. Essas experiências auxiliam o próprio disco diante de seu curso rumo à sua mensagem principal, que se enraíza nas noções da autovalorização, do autorrespeito, do autoconhecimento e, claro, da superação. Sendo esses temas bastante frágeis, o grupo provou ter delicadeza o suficiente para tratá-los de forma a mostrar seus pontos mais abissais aos seus instantes de superfície. Não é fácil olhar o mundo com lentes coloridas enquanto se está sofrendo. E aqui, o sofrimento vira arma. Vira incentivo.
Caminhando por entre melancolias, nostalgias e dramas de caráter pungentes, Entre As Canções E As Dores, por um lado, pode ser encarado como uma espécie de diário musicado. Um diário cheio de poemas que ganham vida e, o mais importante, ganham alma a partir do reverberar da voz que pronuncia cada palavra de seu corpo. É bonito, portanto, ver que as lágrimas se transformam em brilho.
E para dar peso e consistência sonora a esse universo sensorial, o Gatos de Apartamento se aliou a uma equipe técnica composta por nomes como Carlos Eduardo Freitas e Bruno dos Reis com participação também de Pelissoni. A partir deles, Entre As Canções E As Dores alcançou uma sonoridade cristalina em que cada instrumento pode ser ouvido em sua forma bruta. Do baixo à guitarra, cada elemento pode ser perfeitamente degustado, proporcionando uma límpida compreensão da sonoridade experimentada pelo grupo.
Já no que tange a produção, o disco chama a atenção por apresentar um processo cíclico. Um processo em que o personagem central, ainda que não propriamente apresentado, viva instantes de dor, de sofrimento, de culpa e de remorso até chegar naquele patamar de êxtase. De bem-estar.
Fechando o escopo técnico, vem a arte de capa. Assinada por Gus Rosa, ela consiste na captura de um ambiente puramente bucólico que destaca a figura de uma casa de madeira quase encoberta pela vegetação. Esse é um dos aspectos que chama a atenção. Afinal, a obra apresenta quase por inteiro uma mesma tonalidade. Com seu aspecto de sépia, a imagem dá um ar de antigo, de passado. Mas um passado com pontas de vida graças a uma árvore em cuja copa nascem diversas e pequenas flores roxas, sugerindo esperança em meio ao torpor e ao conforto do sofrimento.
Lançado em 16 de janeiro de 2026 de maneira independente, Entre As Canções E As Dores é um álbum capaz de fazer da melancolia um prazer e a esperança um bálsamo. Eis aqui um trabalho que combina sensibilidade e musicalidade para narrar o processo de um indivíduo que sai do abissal do sofrimento à luz da superação. Tudo a partir de uma MPB moderna cheia de nuances introspectivas que se valem pela delicadeza, pela ternura e pelo cuidado.

