NOTA DO CRÍTICO
Depois de quatro anos do lançamento de Titan, seu álbum de estreia, Dan Abranches dá um grande salto em sua carreira. Contabilizando um total de 16 singles, um EP e um álbum ao vivo em sua discografia, o cantor capixaba agora anuncia Agridoce, não apenas seu segundo disco de estúdio, mas seu primeiro full-length visual.
É interessante o fato de a canção ser puxada por chiados. Eles lhe conferem uma noção de crueza que, conforme a obra se desenvolve, vão sendo dissolvidos pelo vento e dando lugar a uma atmosfera de pura maciez. Abraçada, portanto, por um veludo incontestável acompanhado de uma sensualidade nascente posta em cena através de uma interpretação lírica, no mínimo, ousada, ela é agraciada por um canto exortado por uma voz aguda, fofa e aconchegante. De posse de S.Y.M.A, ela é apresentada sob afiados falsetes que são adornados por sonoridades sintéticas ligeiramente adocicadas vendidas sob uma textura macia que transpira, consequentemente, um viés sensorialmente entorpecente. Quando Dan Abranches assume os vocais, a composição passa a ganhar fluidez em meio ao seu tom agridoce e a uma estrutura conjuntural que, agora, se mostra madura. Contando com a presença da bateria, a faixa conquista qualidades como precisão e consistência, além de uma feliz noção de movimento fluido e sincopado nos moldes puros de uma experimentalidade que propõe a fusão da nova vertente da MPB com o soul. Tendo na guitarra o elemento que cria o aspecto melódico de forma a trazer uma espécie de soft rock necessariamente swingado, a faixa-título transpira frescor e simplicidade enquanto mergulha em um enredo que aborda um relacionamento de natureza tóxica e ausente de reciprocidade. Ainda que essa possa ser a sua temática superficial, a faixa tem um quê mais profundo que avalia o processo da aquisição do senso de autovalorização e autoconfiança, tornando, assim, consequência o ato da independência daqueles que apenas agem em prol da diminuição do brilho alheio. Acima de tudo, a faixa-título é uma obra sobre autorrespeito.
Seu despertar já evoca o torpor. É como se, através da sonoridade sintética adocicada produzida pelo sintetizador conjunto de Geremias Rocha e Abranches, a faixa convidasse o ouvinte não apenas a um processo de introspecção curiosamente reconfortante. Seu incentivo é, aqui, centrado em uma sensorialidade baseada na maravilha da leveza inerente ao puro romantismo. Entre os suspiros da guitarra de Jay Sant, Abranches entra em cena através de uma interpretação lírica lexicalmente branda que faz o ouvinte sentir a máxima leveza. Exaltando a natureza de base doce de sua voz, o cantor explora uma cadência lírica que contrapõe ao torpor pegajoso instigado pela melodia e insere pitadas de um movimento fluidamente aveludado. Ainda assim, é inevitável que, mesmo diante do compasso firme da bateria de Natalia Arrivabene, o sintetizador, ao assumir um andamento ondulante, faz com que o espectador mergulhe, em definitivo, na sua proposta sensorial amorfinante. De teor sonoro hipnótico, o instrumento, felizmente, leva a audiência para um recorte melódico-narrativo em que, graças ao caminhar singelamente provocante do baixo de Izaque Hortêncio na base melódica, a faixa explora uma sensualidade engrandecida pelo veludo do teclado que representa o sonar do fender rhodes. Baseada no soft soul, Ela, uma faixa liricamente cheia de pronúncias coloquiais, apesar de romântica e contagiante, escancara um indivíduo na ânsia de se provar. Na verdade, provar para si que se conhece. Porém, quanto mais evolui, mais a música mostra que o personagem está sempre em busca de algo que o preencha e que o faça sentir bem. É como uma espécie de autonegação de carências ofuscadas por uma postura consciente e resiliente. No fundo, porém, o personagem principal vive em função da busca por algo ou alguém capaz de preencher a sua essência e a sua alma.
O som do despertador mostra que o dia começou e que é preciso ir à luta. Nesse ínterim, enquanto a guitarra, com seu riff agudo e swingado, vai desenhando um movimento lexicalmente amaciado, existe uma nuance sonora digitalmente grave se sobressaindo diante da camada melódica. Gradativamente se mostrando ser nuances líricas, esse toque sintético vai criando uma sincronização para com o andamento rítmico da bateria de forma a fazer com que a música, como um todo, viva o senso de fluidez no que tange um curioso toque de frescor em sua paisagem estrutural. Adicionando a presença de um teclado manso e de natureza aconchegante, a faixa se permite explorar um toque de romantismo delicadamente libidinoso evidenciado através do contato entre os elementos instrumentais em um mesmo espaço de convívio. Estruturalmente simples, mas esteticamente viciante, a composição se torna completa com um refrão que, muito mais que trazer a sedução, exorta uma paixão educadamente ardente. Com esse arranjo, Pra Te Ver, obra que ainda conta com inserções de um coro vocal formado por Abranches, Léo Chamoun e Luíza Dutra, é capaz de amplificar a harmonia de forma a criar uma atmosfera transcendental súbita enquanto dialoga, propriamente, sobre o se permitir amar. É o viver do romance livre dos autoboicotes que o próprio inconsciente desenha como forma de distanciar ouvinte daquilo que incita o bem-estar.
A sonoridade começa de uma forma propositadamente quase inaudível. Ainda assim, é possível de se perceber a sua natureza sintética. Rapidamente, porém, junto com o enredo lírico, um beat entra em cena promovendo a construção de uma atmosfera rítmica até então inédita. Fazendo com que o ouvinte vivencie um novo tipo de experiência estruturo-sensorial, algo que explora uma sensualidade promovida por ligeiros flertes para com a temática do pancadão, a música não se acanha em, uma vez mais, mergulhar em uma paisagem sonora sensual em que o sintético e o orgânico coexistem em perfeita harmonia. É verdade que, aqui, o instrumental se apresenta sob um desenho mais minimalista em relação àqueles apresentados anteriormente, mas permite, de fato, o mergulho em novos universos. Melanina, além de convidar o ouvinte a vivenciar a experiência disco music durante o refrão, apresenta, também em seu ápice sonoro-narrativo, Elaine Augusta e seu timbre levemente grave colocado em cena de forma aberta, o que aumenta a vivacidade da obra. Se apoiando não apenas em rimas pobres, mas também em sons homófonos, Melanina é uma canção de aparência romântica que exalta a pele mulata em um formato que, além de ser revenerante, propõe, nas entrelinhas, o fim do preconceito racial e as consequentes aquisições de respeito e igualdade.
O soul é trazido, novamente, de forma amaciada e sensual de forma a trazer consigo nuances pops. Tudo desenhado inicialmente apenas pela guitarra, instrumento que, dominando a cena com sua suavidade serena, abraça sincronicamente o andamento lírico assumido por Abranches. Necessário pontuar que, na presente composição, o vocalista se aventura em uma narrativa calcada no idioma inglês, o que confere à arquitetura uma aparência nova. Com esse toque de leve excentricidade minimalista, a canção, ao se permitir evoluir, permite a entrada de uma bateria dominada por Rafael Borges. Com ele no comando das baquetas, o escopo rítmico obedece a simplicidade estrutural ao mesmo tempo em que se torna, junto da guitarra, a alma da obra por defender o soul como seu gênero base. Entre falsetes bem executados, sobrevoos de sonoridades de instrumentos de corda colocados na receita melódica de forma sintética e um toque singelo de romantismo, Higher funciona como uma espécie de continuação de Ela. Afinal, aqui Abranches se apoia em um contexto de libido explorado de maneira gentil e educada, ao passo que evidencia, através de um lirismo romântico, a busca por pertencimento e a presença de carências ainda sem a compreensão exata de suas origens.
Ao fechar os olhos, o ouvinte divaga. Ao fechar os olhos, o espectador se introspecta. Ao cerrar os olhos, a audiência se teletransporta. Através da união entre a sonoridade macia defendida pelo sonar aveludado do fender rhodes e o reverberar da água seguindo seu fluxo, é possível ser capturado pela máxima essência de calmaria, plenitude e bem-estar. Delicada e explorando nuances transcendentais, Água É Fluxo funciona como um interlúdio classicista em que o piano, presente a partir de dado momento, se sobressaindo perante o sintetizador, se transforma no protagonista absoluto e dá, à obra, um toque de jazz.
É interessante perceber que, dos chiados que exortam uma identificação sensorial de crueza, o violão de Daniel Silva surge desenhando os primeiros sinais de uma melodia delicada que transpira, inclusive, agradáveis brisas de frescor. Ao fundo, um violoncelo valsa por meio do comando de Christian Munawek criando, assim, uma atmosfera entorpecente de nuances intimistas, mas, até o momento, sem qualquer sinal de dramaticidade. Abastecendo a experiência sensorial do espectador com uma espécie de MPB que transpira melancolia, a faixa é abraçada por momentos em que os violinos de Adriana Vinand e Jacqueline Lima, muito mais que enaltecer a leveza, fazem, dessa qualidade, o lar da sensorialidade dramática. Aromática, a faixa ainda dá vazão para que a viola de Ildefonso Júnior se sobressaia em momentos súbitos para agraciar o escopo harmônico com seu dulçor generosamente terno. Tendo o arranjo de cordas regido por Bruno Santos como a tarefa que molda a sua essência, Maçã permite que Abranches, pela primeira vez, exprima, de maneira escancarada, a melancolia associada à nostalgia. Aqui, o diálogo se deleita na fragilidade emocional em contato direto não apenas com a resiliência, mas, principal e essencialmente, esperança. Esperança de conseguir amar de novo. Esperança de encontrar alguém que entenda o significado de reciprocidade e respeite as cicatrizes de um ontem cheio de saudade.
De olhos fechados, é como se o ouvinte entrasse em um processo de transe. Uma introspecção tão latente que vai tomando ares de hipnotismo conforme uma voz mansa e doce vai entoando uma prece de postura compassiva e terna capaz de envolver o espectador em um abraço aconchegantemente morno. Ainda que entoada sob uma textura ácida que beira a crueza, essa prece é carregada de um senso altruísta e respeitoso. Assim que ela se encerra em um sussurro levado a um súbito silêncio, Abranches entra em cena com a interpretação lírica mais frágil ofertada até o momento. Enquanto o trepidar do chocalho continua ecoando no ecossistema demonstrando seu viés nativo, o sintetizador reproduz o som do fender rhodes de forma a destacar a maciez de seu universo. Conforme evolui, porém, a faixa vai se permitindo mergulhar em represas psicodélicas brandas que fortalecem seu estado de torpor. Diante dessa sensorialidade, o vocalista se aventura em ligeiras incursões líricas melismáticas que trazem a influência do R&B conforme a narrativa vai se mostrando uma sequência linear da prece entoada no início. Jurema, então, não se mostra apenas uma canção sobre uma figura espiritual mitológica. Ela é, em sua máxima essência, uma canção que transborda gratidão e honraria. Defendendo a ideia da onipresença de um ser agora desencarnado, a canção é um pedido honesto de Abranches para que os astros recebam, de braços abertos, a alma de sua avó. De sua parte, o legado por ela deixado, de bondade, amor e força, será mantido com silhuetas da mais pura e tocante saudade.
Ao ouvir uma voz entoar os dizeres ‘que assim seja’, o piano de Luís Chamis escorrega por suas teclas de gradativa agudez tilintante. Tal como se estivesse introduzindo o ouvinte em um ambiente profundamente onírico, o instrumento vai moldando uma cama de terna brandura que recebe o vocal melismático de Abranches. Aromática e delicada, mas introspectiva a ponto de, inclusive, transpirar nuances melancólicas, a faixa, assim que flui diante do verdadeiro início lírico, é tomada por uma pungente energia dramática. Proferida de forma poética em um tom ferido, Tristeza Senhora explora uma paisagem cinca monocromática cuja melancolia penetra em todos os poros do ouvinte. Com a faixa, Abranches dilacera a realidade do sertão sob a ótima maternal. Uma ótica em que a vida é apenas um objeto que serve como pulso para que outros sobrevivam à escassez de recursos. É a mãe se doando pelos filhos. É a mãe morrendo pelos filhos. São as lágrimas de dor pela desesperança em relação à falta de perspectiva. Em verdade, porém, Tristeza Senhora é a representação de todas aquelas mulheres que sugam suas essências em prol do outro, mas que, no fim, se esquecem de si. A ausência de autovalorização é, aqui, um lento atestado de óbito não apenas à dignidade, mas à vivacidade de um alguém que se permitiu apagar.
O som da flauta de pan ecoa por entre as folhas expostas por entre as frondosas copas de árvores que moldam o monocromatismo verde da natureza. Enquanto o baixo se apropria do cenário com seu toque grave e seco marcante, o pau-de-chuva cria uma textura diferenciada à introdução. Uma introspecção ausente de dramaticidade, mas agraciada por boas doses de um frescor latente. Com uma sensualidade provocante e gradativamente ardente, Abranches vai se apropriando do enredo lírico através da interpretação baseada no idioma inglês. Não muito depois, os pulsos da bateria, em associação aos ecos agudos súbitos da guitarra, vão desenhando um andamento swingado que, junto ao baixo, produz um alicerce soul inquebrantável. Nesse contexto, é interessante perceber que o órgão, ilustrado por entre rompantes, consegue fazer nascer e amplificar, em um lapso, o contexto harmônico, contribuindo, assim, com a elevação do ecossistema sonoro da obra. Não precisa de muito, inclusive, para perceber que os instrumentos, em suas particularidades, defendem as nuances sensoriais propostas em cada verbo proferido por Abranches. O baixo é o cinismo. A bateria, a provocação. Já a guitarra, é a exortação da libido em sua forma mais ardente. O que chama a atenção é que Soul é, em sua máxima essência, uma carta de repúdio. Uma carta de repúdio às interpretações vazias. Aparentemente, o vocalista se utiliza, da canção, para criticar os intérpretes que apenas dão vida a lirismos compostos por outros, mas que não são capazes de lhes dar alma. Com isso, a faixa defende a honestidade e a sinceridade do compositor. A coragem, a ousadia. Ela reverencia todos aqueles que usam do som os gritos de suas dores nunca antes ouvidos.
Depois de um pigarro, Abranches permite que a canção siga seu curso e exploda em uma estrutura madura completamente sincopada. Flertando com uma estrutura funkeada ao modo Bruno Mars graças à maneira como a bateria se apresenta, a canção mostra o vocalista desenvolvendo os versos líricos sob uma cadência rappeada, sugerindo, consequentemente, uma nova óptica de movimento. Sincopada e cheia de rima, a fala do cantor acaba criando, juntamente com a contribuição da guitarra, uma atmosfera abraçada por um senso de sensualidade pegajoso e provocante, mas não necessariamente libidinoso. Entre a adoção de wah-wahs guitarrescos e o apoio de backing vocals que engrandecem a veia verbal, a faixa anda se vale pela soma da presença de WinniT na estruturação da ponte. Com ele e seu timbre agridoce, mas um tanto mais grave em, relação ao tom de Abranches, a canção fortalece sua essência funkeada. Através dessa arquitetura, Trans-Cendental é uma obra em forma de poema urbano sonorizado através de coloquialismos que não lhe conferem apenas a alma, mas a faz servir como uma representação da aflição de muitos que vivem sob a ótica do julgamento movido pelo conservadorismo. Mais do que narrar a trajetória de Dan Abranches, Trans-Cendental é um hino de resiliência que inspira, motiva e fortalece quem é enfraquecido por aqueles escondidos no véu do sexismo.
É um poema sonorizado de forma crua, caseira e com uma textura encantadoramene orgânica. Enquanto o ouvinte parece entrar em contato com o som do rolo de filme entrando em curso durante a exibição de um longa-metragem, a voz agridoce de Abranches surge para dar vida a esse lirismo poemado. Ressoado como se transmitido através de rádios antigos, ou mesmo em uma sintonização AM, o cantor, uma vez mais, sem vergonha, intimidade ou qualquer outro sinônimo de medo, coloca a sua própria realidade no centro do holofote. Ao oferecer seu relato sobre o seu processo de autodescobrimento e de batalha para garantir um lugar ao Sol no mundo que escolheu viver, no caso, o mundo da música, Abranches abre fendas que, rapidamente, se transformam em crateras no que tange a força de suas palavras para um sentido motivacional. Apesar de curta, Blue, o último interlúdio antes do fim de Agridoce, funciona como um hino de perseverança. Uma literatura de resistência, mas, também, de luta. De batalha. Uma faixa que, com pouco, é capaz de dizer tudo e fazer com que o ouvinte enxergue a vida sob a ótica da liberdade e da oportunidade.
É verdade que a canção, desde seu início imediato, transpira frescor, delicadeza, um aroma perfumado e um veludo inebriante. Trazido pelo sonar do fender rhodes, esse toque melódico deixa a canção com uma aparência não apenas aconchegante, mas com brisas de uma sensualidade macia, sem sequer uma menção propriamente sexual. Crua a partir dos chiados que moldam sua paisagem estética, detalhe que traz o lo-fi à somatória de ingredientes, mas também suspirante em virtude da forma como a guitarra de Rômulo Quinelato se apresenta por entre seu riff agudo, a faixa mergulha na experiência de uma vertente MPB modernista que encanta os ouvidos. Do mais tradicional ao adepto à mudança por meio da experimentação, todo e qualquer espectador é capturado pelas nuances introspectivas transpiradas pelas entranhas da fusão do soul com MPB e, também, toques de um soft rock bluesado. Por entre falsetes bem executados e um teclado de notas limpas que dão uma conotação de transparência, Nem Todo Ouro é presenteada pela presença da voz doce, mas firme em sua escola soul de Gavi. Com ela na função de dar vida às estrofes seguintes à introdução, a canção como um todo ganha força e um viés de imponência admirável. O que mais chama a atenção em Nem Todo Ouro é a forma como transforma, através dos pulsos singelos, mas firmes executados pela bateria de Gabriel Ruy, melancolia em força. A tristeza em resiliência. O suspiro em motivação. Como uma obra em prol da superação, a faixa, bem como Blue, é um relato cuidadoso de recortes da vida de Abranches ou, parece ser, em virtude de sua profundidade lírico-sensorial. Sem se esquecer de suas raízes, ele ensina a olhar o horizonte buscando o futuro, mas guardando o senso de pertencimento em um lugar fácil de encontrar para, quando necessário, buscar um terno abraço do passado.
Agridoce pode ser entendido como um álbum profundo de várias formas. Para começar, ele é um produto que mostra a evolução de Dan Abranches no que tange não somente sua musicalidade, mas a sua aptidão e precisão na arte da composição. Com letras mais intensas se contrapondo diante de melodias suaves, o cantor entendeu, aqui, como misturar dor com a brisa fresca do horizonte.
Outro ponto a se destacar é a maneira coesa com que a MPB se transforma. Se reinventa. Evolui. Permitindo o contato direto com gêneros não necessariamente parentes, como é o caso do soul e até mesmo do lo-fi, o álbum se propõe caminhar pela maciez intensa e pela crueza orgânica de forma a conquistar uma alma mais autêntica, vivaz e, até mesmo, visceral.
E o visceral aqui entra em uma alusão, principalmente, à maneira com que Abranches se permite dissecar diante de sua base de ouvintes. Ainda que de maneira, talvez, mais suave, o cantor não deixa de revelar as suas próprias batalhas. Suas lutas. Suas dores. Seus suspiros sofridos. Mesmo assim, ele também se coloca como um alicerce de superação e, sem qualquer enaltecimento de ego, evidencia onde chegou.
Com resiliência, luta e foco no amanhã, Abranches mostra que é possível alcançar seus sonhos. Claro que esse processo pede alguns sacrifícios. Não à toa que, em Agridoce, uma vez mais o cantor dialoga sobre a luta em prol do senso de pertencimento, da autoaceitação, da liberdade perante o julgamento alheio e da noção de origem. Tudo diante da experimentação idiomática transeunte entre o inglês e o português, permitindo que sua mensagem chegue a um número ainda maior de ouvintes.
Misturando aromas perfumados, texturas sensuais aveludadas e brisas aconchegantemente mornas, o cantor faz do álbum uma perfeita mistura de identidades sensoriais. Como mencionado anteriormente, o material é marcado pela dosagem de lirismos intensos e texturas rítmico-melódicas brandas. Tal atitude, de certa forma, é um recado, inclusive, acerca da imprevisibilidade da vida e da sua natureza variável. Afinal, ela pode ser harmônica e dissonante na mesma medida, basta ter força e resiliência para atravessar o momento e buscar o oásis após o caos.
Na companhia de Edu Donna no trabalho da mixagem, Abranches salientou a natureza experimental do material ao mostrar, muito além da intersecção do lo-fi com a soul e a MPB, brisas frequentes para com o R&B muito presentes na escola de canto do vocalista. Esse detalhe auxilia o material a ficar sonoramente mais agradável e energeticamente mais saboroso, ainda que muitos de seus enredos líricos tenham boas doses de acidez.
Uma das principais exceções é Jurema. A faixa faz verter água pelos olhos em virtude do grau sentimentalismo nela depositado. Seu caráter espirituoso e a forma como se explora as ideias de fé, onipresença e um apoio geracional ofertado por meio de um amor verdadeiramente inquebrantável a torna, de fato, uma das obras mais significativas de todo Agridoce.
Fechando o escopo técnico vem a arte de capa. Assinada por Flora Fiorio, a capa mistura referências à figura de Carmen Miranda em virtude da alusão ao natural e pelas cores vivas adotadas. Com um grau de hipnotismo saliente, é interessante também a ideia como a obra, através de imagens em forma de mosaico, brinca com formas não apenas fálicas, mas de caráteres sensu e sexuais enquanto permite a sobreposição do dizer ‘agridoce’.
Lançado em 04 de julho de 2025 de maneira independente, Agridoce é um álbum lítero-musical. Um álbum que se faz através da fusão de poema e melodia. Que exalta o ato de ser humano na sua forma mais crua. Um álbum que, através de narrativas intensas e sinceras misturadas com pitadas de romantismo, serve de espelho motivacional a todos aqueles que, um dia, pensaram em desistir. A resiliência faz o homem. A persistência faz o artista. A união do azedo e do doce a ponto de surtir em algo saboroso faz Dan Abranches.

