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A atmosfera é tomada por intenso drama. Um drama adornado por um grau de visceralidade rascante. Algo tão intenso que é até difícil de ser suportado de maneira consciente. E o interessante é que essa emoção rascante é perfeitamente representada por uma guitarra que grita e se contorce perante um instrumental tomado por uma postura branda, mas graciosamente compassiva.
Suja graças à maneira com que a bateria se desenvolve na base rítmica, a sonoridade é tomada por uma precisão notável, mas que ainda não é capaz de romper com o profundo estado de torpor que é emanado da energia da obra. Esse torpor entra em cena como uma espécie de escapatória de uma dor já identificada, mas de natureza ainda enigmática.
É interessante perceber também que, nesse ínterim introdutório, ao passo que a guitarra solo e a bateria desempenham tais comportamentos, a guitarra base se coloca em cena sob um andamento amaciado vendido por uma imagem áspera que tenta, em vão, trazer certo requinte de racionalidade à cena. Eis então que, como um sussurro, a canção toma o curso de seu primeiro verso.
Nele, enquanto o violão promove um agradável senso de frescor melancólico e o baixo é percebido sob uma desenvoltura delicada e sensível, o vocalista assume seu posto na tarefa de desenhar o enredo lírico da obra. É aí que toda a intensidade é justificada. Afinal, em Digital Love o Extra Band coloca sobre os holofotes o tema da inteligência artificial no que tange o relacionamento.
Enquanto o protagonista da obra se encontra tendo um romance com um ser artificial, questões inerentes à frieza, ausência de empatia e compassividade são trazidas à tona. Ao mesmo tempo, porém, Digital Love destaca, a consequente dificuldade apresentada pelo indivíduo em se relacionar e interagir com outras pessoas. Eis então que são evidenciadas, consequentemente, lacunas comportamentalmente motivadas pelo próprio universo virtual, o qual incentiva a timidez, a insegurança e, até mesmo, em certa medida, a baixa autoestima.