NOTA DO CRÍTICO
Quase chegando no final do segundo tempo de 2025. Mas o ano anda não acabou. Aproveitando esse tempo que resta, os florianopolitanos do Lupino decidem alçar um novo voo em suas carreiras e anunciar, oficialmente, a banda ao mercado da música. Para marcar tal feito, o sexteto apresenta Esquinas, seu álbum de estreia.
A canção chama a atenção por combinar swing, leveza e frescor através de um instrumental de postura expansiva, aberta e até mesmo sorridente em certa medida. Com guitarras se combinando diante de sabores curiosamente azedos que flertam com rompantes graves capazes de demonstrar vislumbres de uma consistência melódica no caminho de ser alcançada, a canção desfila uma sensualidade marcante a partir da desenvoltura da bateria de Diego Manuel Jaeger Rapoport. Agraciada por um bom corpo providenciado pelo baixo de Henrique Goulart Da Silveira, elemento que é identificado perante seu andamento monossilábico, a faixa é, então, abraçada por um timbre feminino de sabor adocicado e toque cuidadosamente agudo. Na posse de Taissa Bordalo Braga Santos, ela, na forma como é usada para dar vida ao escopo lírico, convida o ouvinte para um instante de introspecção enquanto torna a canção uma espécie de horizonte reflexivo. Amadurecendo a sua estrutura rítmico-melódica a ponto de transformar a sua paisagem em algo de nuances melancólicas palpáveis que se embrenham em feixes de uma dramaticidade, felizmente, livre de uma pungência excessiva. Vale destacar que a canção é cheia de quebras sensoriais em razão de suas várias ambiências sônicas que, invariavelmente, se tangenciam propriamente diante da busca por respostas e por um toque interessantemente soturno que a torna suavemente soturna. Diante de tal arranjo, cujas influências caminham entre Pitty, Detonautas e Charlie Brown Jr., Melhor De Ti é uma música que convida a audiência a um diálogo sobre superação. Pode até ser que o tema seja algo batido, afinal, o término de relacionamento é algo muito explorado, bem como a sua consequente necessidade de superação anteriormente pontuada. E o Lupino não foge a essa regra. Porém, o arranjo transforma e a interpretação lírica pode dar outro tom para um mesmo enredo. É aqui que reside o diferencial. A dor, a lástima, a lamentação muito bem representados pelos gritos aveludados e levemente contorcionistas de um saxofone que, na posse de Thiago Rocha, tenta trazer vivacidade às sombras do intimismo diante de flertes com o jazz. As buscas por uma razão para se julgar, pertinente, o inevitável ofertados por um torpor que tenta esconder o ardor dos cortes ainda mal cicatrizados. Aqui é o retrato de um indivíduo em busca de sua própria redenção. Da cura para um coração ferido. Mas, acima de tudo, um reflexo nítido da impaciência de dar, ao tempo, o seu papel de curandeiro e apresentar, no sol do amanhã, a chance de um recomeço.
A guitarra solo entra em cena diante de uma desenvoltura rebolante diante de seu viés aveludado caminhando sobre uma base sintética de caráter brevemente etéreo fornecido pelo frescor adocicado sugerido pelo teclado de Massimo Rosner. Explorando a delicadeza de forma cuidadosa e terna, a faixa chega a tangenciar uma energia espirituosa que embebe o espectador com uma leveza de nuances agradavelmente transcendentais. No entanto, é curioso perceber como em dado momento essa mesma guitarra assume uma postura mais grave e incisiva, de maneira a fazer com que a canção experiencie vislumbres de uma audaciosa rigidez que afasta a morfina do escopo sensorial até então fornecido. Curiosa e felizmente, porém, assim que o enredo lírico começa a ser estruturado e o ouvinte volta a ter contato com aquele timbre doce e delicadamente aveludado, o fazendo se sentir, diante de uma lente imagética, na laje de uma construção observando o mar ao fundo com suas ondas mansas em meio a um céu crepuscular poente. Ritmicamente sincopada e com um baixo de frases curtas, mas encorpadas e salientes que destacam a sua estrutura funkeada, a canção acaba sendo agraciada por certo quê de swing que não modifica o seu frescor absoluto, mas coopera na sensibilidade da maciez estética. De refrão levemente altivo, mas contagiante e estimulante, Mar Calmo continua a temática do relacionamento estacionada na canção anterior. Na mesma ideia de superação de um amor infrutífero, a personagem desse novo capítulo, diferente da anterior, tem certo grau de autoconfiança e autoestima para seguir a direção da própria vida, mostrando os próprios limites para não viver os mesmos erros. A partir daí, é possível afirmar que, na presente composição, existe muito mais uma mensagem de empoderamento e autoestima do que tão somente a busca por superação.
Não necessariamente que isso seja uma indicação de audácia, mas, definitivamente, é algo que foge ligeiramente do padrão. Ao lado de um chiado insistente e sequencial que insere uma conotação de crueza, mas não de brutalidade, a guitarra, perceptível ao fundo, distante de um primeiro plano sonoro, se movimenta de maneira sincopada e atraente. Dando indícios de uma fusão estrutural entre o soft rock e o rock alternativo, ela, assim que se coloca na camada mais superficial da sonoridade, faz com que o ouvinte se embriague com uma estrutura devidamente saliente. Posicionado de forma a criar uma espécie de uníssono com a levada rítmica da bateria, o instrumento, agora em dose dupla, governado tanto por Leonardo Araújo Travassos quanto por Arthur Rodrigues, coloca a leveza, a sensualidade e o frescor como o principal tripé que sustenta a composição nos sentidos tanto sensorial quanto arquitetônico. Quando o enredo lírico se anuncia, a canção é embebida em uma delicadeza brevemente esotérica fornecida pela agudez levemente adocicada do teclado. É assim que Noites De Domingo faz com que o ouvinte se sinta imergindo em um universo onírico penetrante. Acalentada por uma dose de torpor aconchegante que se confunde por entre brisas de um céu noturno de aparência serena e pacificante, a faixa tem um refrão que flerta com o progressivo em razão da contribuição do teclado e sua respectiva textura adocicadamente ácida. Com esse arranjo cheio de suavidade, o Lupino foge da temática do amor e do relacionamento e mergulha de cabeça no processo do amadurecimento. A partir daí, Noites De Domingo lida sobre a leve angústia existente pela busca - e, consequentemente, pela ausência - de noções de motivação e pertencimento. Mais que isso, a canção trata da autocensura, do medo de deixar a verdadeira essência ser vista pelo mundo. Ela é um produto sônico, um poema que dá voz aos oprimidos que buscam pela liberdade absoluta sem as correntes que prendem ao passado e àquele lugar de introspecção e fragilidade que rouba o brilho que reside na vida e no sol presente além do horizonte.
É uma mansidão diferente. O mar, em sua plenitude absoluta, é, nesse momento, agraciado apenas pelas marolas formadas pelo compasso da brisa do vento vinda do horizonte. Com um sol em processo poente, o crepúsculo se anuncia. Porém, junto dele, a praia, a água e som do silêncio verbal traz consigo um convite. Um convite para a introspecção. Para a reflexão. Um instante de pausa abraçada por boa dose de melancolia. É assim que os ressoares uníssonos solitários da guitarra começam a desenhar a experiência sensorial do ouvinte perante esse novo ecossistema. Sim, existe delicadeza no olhar, no toque. Mas cada um desses movimentos são embrenhados em uma compaixão, um torpor que tenta esconder a dor. O sofrimento. Amadurecendo a sua estrutura rítmico-melódica de forma a promover uma interação entre o indie rock e o rock alternativo, a composição amadurece a sua sutileza enquanto lança o espectador diretamente para aquele além-mar profundo. Entre brisas de um veludo hipnótico e curiosamente sensual expostas pelo teclado, é até possível de identificar certo quê de romantismo na canção, a fazendo esboçar despropositadas semelhanças para com os arranjos desenhados pelo Kid Abelha em suas respectivas canções. Intimista em sua máxima essência, principalmente durante o refrão, momento em que se destaca nuances de angústia trazidas pela interpretação lírica, Submerso é mais uma faixa, assim como em Noites De Domingo, traz o medo como a sua base de diálogo. Porém, o medo, aqui, vem na forma de insegurança, de falta de autoconfiança. Em meio a um lirismo que apresenta um indivíduo preso em seus próprios receios, o Lupino, mais uma vez, explora a ideia de ausência de pertencimento. Da incapacidade de lidar com a vulnerabilidade da própria essência e do receio em confrontar a instabilidade do inconsciente. Trazendo a frieza como uma solução fácil e rápida para se abster dos sofrimentos, Submerso, mesmo dentro dessa melancolia de nuances viscerais, motiva o espectador a seguir o curso da maré para ver qual será o próximo destino. Uma perfeita metáfora para o fortalecimento da alma e para a aquisição de um autoamor vestido da mais pura vaidade que dá, ao improviso, as rédeas da vida.
Aqui, o gradativo retoma o controle. Diante do apoio no efeito fade in, a faixa cresce gradativamente ao ponto de mostrar ao ouvinte a sua desenvoltura swingada cheia de repiques e quebras rítmicas como uma forma de extravasar um movimento fora do padrão. Produzindo uma conjuntura sensorial fresca e introspectiva, a canção chama a atenção por colocar o baixo mais em evidência e exaltar seus grooves encorpados que dão, de imediato, corpo e consistência à sonoridade que ainda se encontra em processo de desenvolvimento. Sincopada e agraciada por uma camada brevemente transcendental fornecida pelas notas adocicadas do teclado sobrevoando a base harmônico-melódica, a canção se vale por uma precisão rítmica bem estruturada. De refrão explosivo em que as guitarras se combinam entre agudos contorcionistas de nuances dramáticas com uma aspereza inquietante, a faixa, invariavelmente, deixa escapar brisas de angústia perante a combinação de som e voz. Não é de se espantar, portanto, que ‘angústia’ seja a palavra-motriz de Inversão, uma faixa que continua dialogando sobre pertencimento. Ainda assim, vale notar que a profundidade e a intensidade com que o Lupino trata o tema só aumenta. Trazendo, aqui, o pertencimento no sentido de autoconhecimento, o que induz à percepção do estar feliz consigo, a faixa põe o medo como uma barreira psicológica natural no enfrentamento da imprevisibilidade do futuro, do destino. Eis aqui a dualidade entre expectativa e realidade. Ao vociferar ‘eu escolhi ser’, a cantora se liberta de qualquer tipo de insegurança e se assume. Se encontra. Se aceita como o fruto real e palpável de seu próprio circo de ilusões.
Já diante da introdução, a canção consegue desfilar uma simetria harmônico-melódica de nuances quase espirituais. Em razão da combinação do riff aveludado, agudo e contorcionista da guitarra solo com a agudez sintética e fresca produzida pelo teclado, a canção consegue elevar o espectador para um patamar energético de caráter utópico e de belezas entorpecentes. Para fechar esse contexto de nuances curiosamente místicas e transcendentais, sonares sintéticos agudos e suavemente pipocantes, na função de ponte entre introdução e primeiro verso, dão a liberdade para que Taissa tome os holofotes para si e comece a desenhar os primeiros vislumbres do escopo lírico. Favorecendo a construção de um ecossistema delicado, sereno e de postura introspectivo-reflexiva, a cantora envolve o ouvinte com ternura em meio às brisas de um horizonte etéreo a partir de um experimento vocal que flerta com o soul em virtude de suas brincadeiras de vaivém entre tons altos e baixos com direito, ainda, a suspiros de falsetes bem executados. Suave, singela e abraçada por uma cuidadosa levada rítmica de natureza acústica frágil produzida com esmero pela bateria, a canção leva o ouvinte para um refrão que mantém essa mesma veia de singeleza estético-estrutural, mas com direito à introdução de um sonar sintético bojudo e de sabor azedo desfilando uma textura nova diante do torpor até então disseminado. Enaltecendo a delicadeza e a introspecção como uma importante marca da sonoridade do Lupino, Instante traz uma narrativa que foge um pouco do padrão estipulado pelo sexteto. Não é uma avaliação sobre pertencimento ou autoconhecimento. Apesar de sua sonoridade aveludadamente frágil, a faixa expõe um personagem que se mostra refém de seu próprio mundo das sombras. Um universo paralelo entre consciência e alucinação em que o senso não de motivação em seu sentido puro, mas de propósito, não existe. E é nessa angústia que o personagem lírico entende que a redenção mora no exato instante em que a dor, sendo ela emocional, se mostra um recado de que a vida ainda bate à porta e que existe incentivo para além do sofrimento de tons monocromaticamente cinzas.
Tal como em Noites De Domingo, a presente faixa traz o onírico como uma experiência sensorial que pauta a vivência do espectador. Porém, aqui ela se anuncia logo perante os primeiros instantes da introdução. Por meio da junção de sonares bojudos e tilintantes, ambos de natureza sintética, a estrutura sonora começa a ser desenvolvida de maneira gradativa. Enquanto o baixo é percebido ofertando um groove firme e preciso na base melódica, a bateria invade a cena como uma brisa de vento em razão do efeito do ricochetear das baquetas na superfície do prato de ataque. O interessante é perceber que esse movimento faz com que a obra seja detentora, simultaneamente, de estímulos tanto sensuais quanto transcendentais, o que acaba intrigando o espectador. É então que, diante de uma levada rítmica agora amadurecida em sua forma sincopada, a sonoridade se permite divagar perante suas brisas de leveza e frescor de forma a explorar, uma vez mais, a interação entre o soft rock e os vislumbres do rock alternativo. Com direito a singelas incursões pelo campo do indie rock, Muros bebe de uma postura introspectiva que se transforma em uma imponência travestida de rebeldia, densidade e empoderamento por conta de um súbito de performance metalizada da guitarra solo. Por meio dessa mescla de texturas é que Muros retoma dois importantes temas que regem os diálogos propostos em Esquinas: o medo e o relacionamento. Aqui, na presente faixa, o medo vem na forma de um receio de se entregar a um novo amor. As cicatrizes de experiências passadas tiraram do personagem lírico a segurança e a percepção de que o amor, o romance e a paixão são coisas necessárias que garantem bem-estar para o corpo, mente e também para o sentimento. Como uma espécie de conversa com o inconsciente, pouco a pouco, o protagonista se liberta das correntes por ele mesmo criadas e se lança, uma vez mais, na vida, sem medo das novas experiências que podem aparecer. E o pertencer, que antes causava calafrios, agora é uma lembrança de que ter um porto-seguro conforta, acalenta e fortalece o indivíduo.
O agudo-sintético produzido pelo teclado traz em si uma identidade aveludada e viciante que, de imediato, entorpece o espectador. O interessante, nesse ínterim, é perceber que os pulsos secos e levemente opacos produzidos pelos golpeares do bumbo não necessariamente trazem consistência e precisão, mas, sim, uma espécie de guia rítmico que indica a cadência a ser seguida pelo restante da sonoridade ainda não anunciada. Se valendo não somente pelo seu caráter fresco, mas, principalmente, pelas suas marcantes nuances suspirantes, a canção vai amadurecendo o seu contexto rítmico-melódico de forma a prevalecer o macio e a fazer com que o ouvinte, de maneira léxica, se perca em meio à intensa leveza construída pela camada instrumental. De energia relaxante e de ritmo levemente sincopado, a faixa se mostra um primeiro título de Esquinas em que Taissa é verdadeiramente respaldada por uma segunda camada vocal. Vivido por Rodrigues e seu tom levemente fanhoso, o escopo de backing vocal dá a devida sustentação para que a cantora consiga soar curiosamente brisante em meio aos seus próprios devaneios de nuances extasiantes. Em Chuva De Verão, a personagem do álbum parece ter subido mais um degrau rumo ao seu próprio amadurecimento. Afinal, diferente de faixas como Muros e Melhor De Ti, aqui o eu-lírico se vê imerso em desejo, em prazer. Em amor, em romance. Ele se permite sentir, viver. Porém, é importante destacar que, na presente faixa, aparentemente existem dois sentidos de um mesmo lirismo. O primeiro e mais padrão é, de fato, aquele de que o personagem vive um amor sem medo e completamente livre de insegurança. Mas, a outra opção - e mais surpreendente - é a de que o protagonista não necessariamente se permite amar o outro, mas, sim, se conheceu e se permitiu se aceitar a ponto de, finalmente - e genuinamente - adquirir amor-próprio depois de passar pelos estágios de autovalorização e autorrespeito.
Parece agoniante. Parece um prelúdio de esquizofrenia. O que acontece é que a maneira com que as guitarras se combinam diante da paisagem imediatamente introdutória da composição leva o ouvinte a digerir o inconsistente, o variável. O mutável. Nesse processo, porém, o baixo entra sem aviso com seu groove encorpado e sorrateiro desdenhando certa rigidez diante da desenvoltura melódica. Ainda que ele forneça consistência e firmeza à sonoridade em desenvolvimento, o instrumento é, simultaneamente, responsável por disseminar um interessante senso de fragilidade associado à insegurança. Conforme, então, a música evolui no que tange a sua estrutura, algo de incômodo salta aos ouvidos do espectador. Rapoport, pela primeira vez até então, não parece conseguir se movimentar pela bateria de forma maleável no sentido de fluidez. Se mostrando rígido e duro, ele acaba ocasionando na construção de um escopo rítmico levemente truncado - especialmente nos momentos de golpes sequenciais na caixa - mesmo que a essência da batida seja um mid-tempo de nuances curiosamente dançantes. Mesmo diante de uma atmosfera agraciada por certo grau de sensualidade, o baterista apresenta uma falta de suavidade no ápice do refrão. Submerso em meio às guitarras distorcidas e uma linha lírica pronunciada de maneira imponente e de inclinações empoderadas, ele favorece um desenho percussivo um tanto desesperado, mas que, felizmente, acaba entrando em sintonia com a cadência swingada do baixo. Sensorialmente branda e entorpecente, Cotidiano, como o próprio nome sugere, traz o Lupino questionando a engrenagem e a métrica da rotina, de seus acontecimentos imutáveis e de seus relógios de ponteiros previsíveis. Surpreendentemente, porém, para aqueles ouvidos atentos, a faixa não dialoga expressamente no âmbito social vasto, geral. Extraído do conceito de cotidiano, a temática da obra questiona e se rebela frente ao comodismo e à mesmice existente em um relacionamento. E essa necessidade de mudar o imutável desgasta até o ponto em que a imunidade ao incômodo é alcançada. Trazendo esses detalhes como uma colcha de retalhos, é a ponte que guarda a essência do diálogo de Cotidiano.
Não existem meios plausíveis de resistir. O instrumental que rege a presente canção não é apenas e tão somente aveludado. Ele é swingado, sensual e abraçado por uma levada groovada extasiante. De estrutura denotativamente frágil diante de seus flertes com o soul, algo que, inclusive, é observado diante das nuances lírico-interpretativas assumidas pela vocalista, a canção, mais até que em Chuva De Verão, evidencia a rígida sintonia entre Taissa e Rodrigues que, aqui, soam como uma espécie de par que se completa sinergicamente. Afinal, enquanto a vocalista se apresenta impaciente e de nítida postura exausta, o backing vocal entra na tentativa de suavizar o cansaço e mudar a energia angustiante expressa, principalmente, pelas falhas propositais em determinadas pronúncias líricas. Marcada por certo encantamento observado entre a sinergia existente entre a desenvoltura da guitarra solo, os pulsos secos da bateria e a maciez levemente ácida do teclado, a faixa acaba garantindo para si uma identidade sonora chiclete e viciante. Interessante e ousadamente, Abismo De Começos traz posicionamentos rascantes em relação à autopercepção. Não dialogando estritamente sobre relacionamento no que tange a existência de um romance, a faixa explora a forma como as carências emocionais afetam a percepção de si e enaltecem a insegurança. A busca pelo controle da consciência em relação a certa maturidade guarda a essência de Abismo De Começos, uma faixa que, assim como Melhor De Ti, destaca a resiliência como chave da determinação.
Ao mesmo tempo em que a estrutura rítmico-melódica que rege a introdução soa solar, contagiante e animada, é interessante, necessário e curioso pontuar que, dentro de cada golpe percussivo ou de cada riff agudo-aveludado de nuances ríspidas extraído das guitarras, o ouvinte pode encontrar brisas pinçantes de melancolia. E essa melancolia, mesmo que proferida por uma sonoridade no limiar entre o mid-tempo e uma cadência ligeiramente acelerada, acaba trazendo, em si, uma despropositada, mas, visível, semelhança para com aquela energia dramática pungente e tocante fornecida pelo time de músicos do Iron Maiden em sua composição Hell On Earth. Fora esse vislumbre, a presente composição é envolta em certo quê de modernidade na forma como desenha o rock alternativo. Agraciada por trechos sonoros suspirantes graças à contribuição fornecida pelo teclado em meio às suas notas aveludadas cuidadosamente agudas em um viés esotérico suave, a canção, invariavelmente, retoma o introspectivo estacionado na faixa anterior. De nuances comportamentais simultaneamente reflexivas e cabisbaixas, a composição conta com uivos produzidos pela dupla de backing vocals Silveira-Rosner para produzir um efeito nostálgico-melancólico, incentivado, inclusive, pelas notas doces produzidas pelo teclado que valsam, com delicadeza, pela base sonora. Não apenas em razão de ser a música mais longa em duração de todo Equinas, mas Promessas De Retorno ganha título de marcante pela intensidade sentimental expressa por Taissa. Cheia de sinceridade e, portanto, honestidade, é quase capaz que o espectador se depare com inclinações autobiográficas em razão da sinceridade rígida presente em cada palavra por ela proferida. De identidade suplicante, o que a torna, ao mesmo tempo, angustiante e agonizante, Promessas De Retorno é, talvez, a canção de Esquinas em que o Lupino definitivamente trata do tema relacionamento em sua significância léxica. Claro que, dentro desse espectro, o sexteto mergulha na exploração da carência, da insegurança e, aqui, principalmente, da solidão. O vulnerável exposto em sua identidade mais crua, evidenciando, assim, as fraquezas rascantes que fazem com que o horizonte se turve e a dor interna seja a única visão de um olhar programado à cegueira do sorriso possivelmente obtido em meio às promessas de retorno que confortam o coração com mentiras que agradam.
Chega a ser intrigante e honroso observar uma banda com coragem o suficiente para se lançar ao mundo da música pelos próprios esforços. Mais ainda, é de surpreender que um determinado grupo consiga, já em seu material de estreia, mostrar, de maneira cristalina, a sua essência. E aqui envolve não apenas o som propriamente dito, mas, sim, os enredos líricos, suas mensagens e a forma de abordar determinados temas.
Com Esquinas, os manezinhos do Lupino se colocam no mercado com uma postura madura e consciente, mostrando um som consistente, bem trabalhado e com camadas bastante equilibradas. Liricamente, eis aqui um material que, definitivamente, não foi feito para se ouvir em academias, festas ou como música ambiente de bar. Afinal, é preciso ter um momento solene, ausente de interferências externas, para assimilar aquilo que está sendo dito.
É verdade que, para muitos, pode ser que o álbum seja um material de temáticas batidas, bastante exploradas no universo da música. De fato, essa constatação não de toda errada. Porém, ao se atentar nas performances, na entrega e na intensidade com que esses temas são abordados, o negócio muda.
Autoconhecimento, busca por pertencimento. Insegurança, medo, superação. Autoaceitação. Autovalorização. Amadurecimento e anseio por autoconfiança. Carência de afeto, de cuidado, de proteção. Esses são assuntos que, trazidos com uma sensibilidade sincera, honesta e pinçante por parte de Taissa, expressam e representam a realidade emocional dos jovens nascidos nos primórdios dos anos 2000, ou seja, a Geração Z.
Com interpretações líricas banhadas, principalmente, em melancolia, e respaldadas por uma postura introspectiva, cada canção é um profundo e orgânico convite à reflexão. Sem filtros ou qualquer tipo de edição, cada imagem criada pelo contexto sonoro beira o monocromático, ainda que, de alguma forma, a própria indução lírica leve o espectador para ambientes reconfortantes.
Para dar vida a essas temáticas, muito além das performances líricas, é preciso um bom time instrumental para dar peso, ampliar a intensidade e inserir nuances pungentes ao ambiente. Felizmente, isso também acontece em Esquinas. Transitando livremente entre paisagens sônicas como jazz, indie rock, rock alternativo e soft rock de maneira a ir por nuances soturnas que capturam o ouvinte pelas nuances da fragilidade, o disco destaca um eficiente trabalho na questão produção-mixagem.
Efetuada pela figura já conhecida de Travassos, pelo lado da mixagem, ele se vale, principalmente, pelo bom equilíbrio encontrado para dar voz, de maneira igualitária, a todos os instrumentos presentes. Sobre a produção, o caminho lírico-sonoro caminha por um curso linear, tal como se fosse uma história contada em 11 capítulos. Talvez pela sua presença também no time criativo do som, o profissional tem o acréscimo de ter a sensibilidade de dentro de cada universo, lhe favorecendo um comando mais eficiente na função própria da produção.
Nesse sentido, é interessante que canções como Melhor De Ti, Muros e Abismo De Começos sejam as que mereçam maior destaque. Ainda assim, a mais significativa de Esquinas não é nenhuma das três, por mais que elas tragam, de maneira mais profunda e enfática, os detalhes anteriormente pontuados. É Chuva De Verão aquela mais tocante. Definitivamente emocionante e, portanto, capaz de emocionar a ponto de levar o ouvinte às lágrimas, a presente faixa, apesar de não ser a de desfecho do álbum, é como se fosse o apogeu da narrativa da sua personagem. Após tanto sofrer, ela se permite dar uma nova chance à vida e às emoções que podem surgir.
Fechando o escopo técnico, vem a arte de capa. Assinada por Júlio Victor, ela evidencia uma rua de arquitetura que destaca um certo charme agregado à década de 1850. Apoiada em nuances, talvez despropositadas, de uma paisagem velho-oeste estadunidense, ela mistura traços modernos com elementos que beiram o antigo.
E no meio de tanto estímulo visual, duas coisas saltam aos olhos: a representação de Taissa na forma de uma mulher bem ao centro do cenário; e a realidade de que é, especialmente, a sua imagem, que detém tons que se destacam em meio ao monocromatismo acinzentado do restante dos indivíduos aqui dispostos. A partir daí, se tem a perfeita representação da máxima das obras Psicologia Das Multidões, de Gustav Le Bon, e Psicologia Das Massas E Análise Do Eu, de Sigmund Freud. Nessa fusão, a obra visual de Victor destaca, ao mesmo tempo, a menor consciência de si mesmo em meio à multidão e a necessidade inconsciente pela aquisição do senso de pertencimento, abrangendo, em sua totalidade, o cerne do diálogo de Esquinas.
Lançado em 31 de outubro de 2025 de maneira independente, Esquinas é um álbum que expressa, com grande sensibilidade, a busca por identidade, por autoaceitação e pertencimento. Um disco que, em meio a uma junção de poemas musicados, funciona como uma sessão de terapia em que se disseca toda a origem do medo, da insegurança e da vulnerabilidade. Consciente, ainda que introspectivo, o produto relata a trajetória rumo à identificação e autoaceitação do indivíduo, destacando, por fim, o autoconhecimento como o estágio final dessa jornada.

