NOTA DO CRÍTICO
A banda surgiu em um ABC Paulista oriundo de 2017. Oito anos depois, a Continue chega com um portfólio contendo o EP Súbito, anunciado em 2023 e alguns pares de singles. Eis então que, passado por um período de mudanças e amadurecimento artístico, o grupo apresenta Imenso Nada, seu disco de estúdio de estreia. Ele nasce com a intenção de trazer o retrato mais fiel daquilo que se deseja comunicar no que se refere à poesia e experiência sonora.
Para os desavisados, uma surpresa. Ainda que a canção tenha seu início moldado perante uma estrutura introdutória padrão, com um instrumental capaz de ambientar o espectador em meio à paisagem em construção, ela apresenta, surpreendentemente, uma maturidade sonora bem desenvolvida. Diante da interação direta entre a bateria de pronúncia repicada e precisa de Diogo Marino e o baixo de presença encorpada perante inclinações estridentes e comportamento vigilante de Bruno Molino, a música oferta, ao mesmo tempo, o sombrio, o libidinoso e o pegajoso. Com direito ainda aos ecos desenvolvidos pela guitarra em um pseudo efeito wah-wah, a canção faz com que o ouvinte se sinta em um cenário semelhante a uma caverna, mas uma caverna em que a luz natural se faz presente e o nebuloso acabe dividindo o espaço com a brandura de uma paisagem límpida. Nesse ínterim, a canção não apenas mostra a fusão estrutural entre o rock alternativo e um hardcore de aparência mais soturna, mas cria uma espécie de curioso frescor que rememora as sonoridades de nomes como Charlie Brown Jr. e NX Zero. Oferecendo notas de um veludo aconchegantemente entorpecente, Içar Velas, com um formato de jam session agraciado por uma repentina inserção verbal, tem, na pronúncia ecoante do timbre doce e levemente nasal de Natália Zanellato que faz o ouvinte relembrar aquele tom icônico possuinte por Elis Regina, o elemento a inserir brisas de uma psicodelia penetrante no seu ecossistema. Apesar de curta, uma espécie de prelúdio, um prato de entrada que abre o palato para a experiência sensorial a ser sugerida em Imenso Nada, Içar Velas, com poucas palavras denotativamente verbalizadas, expõe uma reflexão pungente não apenas sobre a impunidade social, mas, sim, sobre a ausência de lei em um mundo órfão de representatividade, de ordem e de amparo. Um mundo em que, perante a solidão, faz com que o ódio domine, a intolerância agrida e a falha alimente a fome daqueles que julgam por mera diversão. Ainda que exista a explicação para um comportamento tão autoimune, não há, efetivamente, uma justificativa plausível para tal. Eis, aí, o lamento que reverbera na obra.
Ela vem cuidadosa. Com uma timidez encantadora, a guitarra vai ocupando seu espaço de maneira educada e gentil, ao passo que permite que a sua melodia simples evoque o frescor em meio aos sensos de delicadeza e fragilidade. O interessante, aqui, é perceber que, a cada frase, existe uma pausa. E em cada pausa é como se houvesse um respirar profundo. Um alívio em forma de suspiro. Uma dramaticidade prematura, mas que traz consigo nuances teatrais a um enredo ainda em nascimento. Com a entrada da guitarra solo, com seus roncos graves, mas sem romper a vulnerabilidade estética, a canção amplia o seu caráter frágil enquanto a linha lírica se desenvolve na forma de uma súplica lançada ao vento como se em busca de respostas. Amplificando e tornando mais firme a postura intimista iniciada na composição anterior, a presente faixa se permite evidenciar uma melancolia há muito represada, mas que encontra, aqui, o seu refúgio de existência. Entre o sabor azedo e um veludo de nuances embrionariamente bluesados, a faixa-título vai garantindo para si a forma de uma verdadeira prece. Uma espécie de monólogo que, em meio a versos rimados e homófonos, explora não apenas a angústia, mas a desesperança. Eis aqui uma música que traz um personagem vivendo, antecipadamente, a sua própria ruína. O seu próprio caos. A sua própria loucura resultante de tanto grito censurado até virar sussurro. A voz pode calar. Mas os olhos vivem aquele sentimento que nunca poderá ser calado. E no momento em que a desarmonia agride o bom senso, as lágrimas representam o frenesi da cura.
Aqui o Continuue surpreende por explorar uma sonoridade padronizada, chamando a atenção justamente em razão de optar pelo seguimento de regras pre-estabelecidas do ramo musical. Pulsante, levemente azeda e com uma noção de movimento felizmente fluida, a canção se evidencia sob uma paisagem que propõe um embrionário soft rock travestido de um rock alternativo sombrio e soturno. Chamando a atenção por trazer em cena uma construção sonora léxica no que tange a significância de melodia, a obra consegue fundir os sensos de conforto, veludo e uma nostalgia melancólica bem trabalhada ao ponto de ser recebida de maneira sensorialmente tocante pelo espectador. Delicada em sua essência, a faixa explode em um hardcore melódico consistente com brisas rascantes que amplificam o seu cardápio sensorial. De bateria firme, a composição, a partir da maneira com que a linha lírica é construída, explora nuances de uma crueza levemente estridente que põe em sua receita pitadas de lo-fi. Trazendo, conforme se desenvolve, uma paisagem sonora semelhante àquela construída por Mariana Camelo, a faixa flerta com um metal alternativo melodramático penetrante. Com esse enredo, Síndrome de Harpia é onde o grupo explora uma vivência inquietante emaranhada por noções de ausência de pertencimento, além da vulnerabilidade relacionada à percepção do inexistente autoconhecimento. Culminando com a desorientação, esses sintomas apresentam um indivíduo deslocado e imerso em seu próprio mundo em busca de um conforto hoje existente, mas que, um dia, não mais será suficiente para lhe gerar o conforto desejado.
Ela chama a atenção. Não apenas pelos seus pulsos percussivos precisos e em cadência lenta, mas, sim, pela aparente tentativa de, ao menos, flertar com uma paisagem sonora mais comercial. Desenhando, a partir da desenvoltura da guitarra, uma paisagem estética prematuramente associada ao hard rock, a presente obra permite que, nas entrelinhas da estrita relação entre bateria e guitarra, o ouvinte consiga identificar a contribuição do baixo na construção melódico-sensorial. Oferecendo uma base melódica desenhada de forma a oferecer um entremeio do azedo com o estridente, o instrumento faz com que a canção adquira uma consistência sonora mais aguçada. O interessante, nesse ínterim, é notar a evolução da canção para um cenário que retoma, cada vez mais, o introspectivo, o soturno e o entorpecente. Aparentando uma proposital elaboração estética nauseante, Céu Do Planetário desfila uma maciez estruturalmente melancólica que mantém o espectador na sua própria zona de conforto da conformação. É curioso que o lirismo traga uma mensagem que não siga exatamente esse mesmo caminho sonoro-sensorial. Afinal, a obra apresenta um personagem apoiado em um resistente senso de resiliência. Um indivíduo de fato intenso, impulsivo e até mesmo inconsequente, que destaca, de maneira mais enfática, aquele que parece ser o cerne do presente lirismo. Céu Do Planetário, enquanto aparenta lidar com os fenômenos sociais inerentes ao crescimento e ao amadurecimento, dialoga sobre o contato frequente com o assédio moral evoluído a julgamento ao mesmo tempo que o critica. A partir daí, de maneira sutil e quase imperceptível, uma vez mais o personagem grita por independência, pela oportunidade do extravaso e mostra a sua maturidade entorno de sua própria convicção de si e percepção de mundo.
Ela surpreende. É como se algo, à espreita, estivesse prestes a dar o bote em sua presa. De atmosfera sombria e efervescente, principalmente a partir da maneira como a bateria se movimenta, a tensão se torna um elemento sensorial incômodo e crescente. Ao mesmo tempo, quanto mais as guitarras conversam com a percussão, mais a canção vai sendo palco de uma estrutura melódica, mas completamente imersa em um pegajoso senso melancólico. Misturando toques de rebeldia associados à vulnerabilidade e à instabilidade, a faixa chama a atenção por trazer uma postura rítmico-melódica insegura, mas travestida de empoderamento. Se tornando percussivamente trotante, a canção acaba evidenciando as guitarras gritando por redenção enquanto a bateria se perde por entre sua própria e respectiva agonia. Mostrando uma Natália mais consciente de sua capacidade vocal ao ilustrá-la experimentando diferentes formas de melismas como uma maneira extra de encarnar a angústia do eu-lírico, Mercúrio Retrógrado é uma faixa que chama a atenção pela possibilidade de diferentes interpretações de seu conteúdo verbal. De um lado, parece retratar alguém que perdeu o elo de pertencimento e que, portanto, mergulhou em um desgosto que, de tão difícil de se libertar, evolui para uma depressão que o consumiu. De outro, uma visão mais serena, mas não menos emotiva, a faixa parece retratar o fim iminente de um relacionamento e a negação dos sinais de sua desarmonia.
É a pura melodramaturgia. Bateria e guitarras se fundem em uma estrutura que combina pulso, melodia e sofrimento. Como uma espécie de representação dos batimentos cardíacos descompassados, a bateria confere a imprevisibilidade, a instabilidade perante a estrutura da obra em desenvolvimento. Já a guitarra base exorta uma agonia em ebulição que tem sua explosão vivida de forma intensa pela guitarra solo. Com a interação flamejante dos músicos, a canção acaba mostrando mais um ponto em relação à versatilidade do Continue. Afinal, quanto mais incandescente e incendiária a faixa se torna, mais ela comunica a experimentação estrutural do grupo no que tange a paisagem do metal alternativo. Transpirando bons toques de raiva e inconformidade, a composição se permite caminhar por entre terrenos consistentemente trotantes que conferem uma noção de movimento levemente rígido para com o escopo instrumental. Diante dessa roupagem, Cerrando Os Dentes, antes mesmo de explodir em seu auge, momento em que oferece uma surpreendente arquitetura dançante, tem, no baixo, o elemento que, por entre seus grooves súbitos e secos, a representação das insistentes tentativas de recobrar a consciência. Fresca, mas impositiva, a composição se constrói envolta de uma metáfora. Cerrar de dentes pode ser entendido como um ato de autocensura, um ato de desespero em prol do controle de emoções conflitantes. Emoções que, diante de vivências egoístas, irrecíprocas e até mesmo tóxicas, colocam a percepção de autovalorização e merecimento sobre a vala do automenosprezo. Porém, como uma marca já confirmada do viés narrativo do Continue, também a presente personagem é imbuída de uma resiliência que a permite, ao menos, sonhar com a possibilidade de se entregar para um amor que cure as feridas impressas em um corpo-mosaico de um passado desgostoso.
A guitarra se coloca em cena com uma distorção grave e de andamento lento. Construindo uma textura ácida em cuja totalização de sua performance flerte bem ligeiramente com o doom metal, o instrumento se afasta dessa percepção conforme se aventura na elaboração de frases macias que, prematuramente, sustentam o nascimento de um comportamento sensual. Quando Natália entra em cena com sua voz editada de forma a soar tão ácida quanto a guitarra, mas, em sua essência, ecoante, a canção não apenas parante para si uma cenografia palpável, mas leva o ouvinte, curiosamente, diretamente para algum lugar do nordeste. De olhos fechados, é como se o espectador se visse em tal região a beira de um rio frondoso banhado pelos primeiros raiares de sol do dia. E como um ser onipresente, a voz que outrora fora de Natália assume vestes espirituosas como um sopro do além mostrando o caminho. É então que a cantora passa a ser respaldada por um time de backing vocal que, formado por Gabi Doya, Tainah Cruz e Danilo Rocha, oferece um reforço em forma de uivos ululantes. Contudo, de repente vem uma pausa e o silêncio se faz. Segundos mais tarde, Lavadeiras explode em uma estrutura repaginada a ponto de contar com a acidez adocicada do teclado de Kiko Bonato introduzindo pitadas de psicodelia à obra. Ao mesmo tempo que também consegue oferecer nuances progressivas, o instrumento se coloca na base, ao lado do baixo, oferecendo um auxílio harmônico que preenche os singelos espaços restantes. Com o calor sobre o couro cabeludo e o suor escorrendo pela testa, o personagem de Lavadeiras, com uma extensa bagagem de vivências impressas na pele, se permite o regredir para o lugar em que, muito mais que lhe permitir a liberdade, lhe proporciona assumir a própria essência.
É simples. Mas nem sempre o simples está relacionado à ausência de qualidade ou da capacidade de despertar a sensibilidade. Se movimentando diante de uma cadência em 4x4, a bateria assume a função de ser a base da construção de uma cenografia monocromática de postura introspectiva cujo frescor, surpreendentemente, é capaz de oferecer conforto e alento. Delicada em sua máxima essência, é tocante perceber a familiaridade estético-energética da presente faixa em relação àquelas presentes na lista de músicas que preenche La Família, disco póstumo do Charlie Brown Jr.. Melancólica, intimista e de teor reflexivo, Medo é o reflexo da autoanlulação. A narrativa do esquecimento em forma de lamento. A verdade inerente à ausência não apenas de motivação, mas de propósito. A pergunta nunca antes feita, mas respondida pelo senso de desesperança que culmina com o autoflagelo representado não apenas pela perda da autoestima, mas pela ausência de essência. De identidade.
Dentro de uma aparente introspecção, existe o swing. E dentro desse swing, existe uma prematura ideia de ânimo sendo observada por entre as fissuras ocasionadas pela movimentação da guitarra. Nesse ínterim, o minimalismo ganha a companhia do tilintar sincopado da cúpula do prato de condução. Por meio dele, não apenas o ritmo passa a ganhar corpo, mas brisas de uma jam session jazzista também acabam preenchendo o ambiente. O que acontece, porém, é a surpreendente divisão rítmica que leva o ouvinte a presenciar o forró em sua máxima forma. Justificando o ânimo anteriormente identificado, essa paisagem sonora é vivenciada apenas durante o refrão, pois, nos versos de ar, a faixa permite que a leveza ganhe do visceral e da lamúria. Se destacando pela sua natureza solar, amaciada e compassada, a canção é, inclusive, agraciada pela presença tanto do teclado quanto do sintetizador lhe oferecendo uma suavidade refrescante extra na base sonora. Em Africamerica, apesar de um vasto time instrumental, é, de fato, a bateria que comanda os passos. É ela que define o tanto o andamento forrozeiro quanto o caminhar pautado no rock alternativo de forma a desencadear em uma agradável noção de fluidez e quebra percussivo-narrativa. Diante disso, ainda que banhada pela alegria do céu convidativamente azul do nordeste, Africamerica explora o preconceito e a intolerância racial. A violência e os contrassensos que vêm com o conservadorismo e o autoritarismo mostram a marginalização de um povo colocado para o esquecimento. Eis aqui o retrato do descaso e do absurdo.
Sua introdução minimalista atiça o interesse do espectador como um estímulo quase sadomasoquista. Através de uma levada rítmica levemente quebrada, a canção ainda é possível de surtir em um efeito sensorial que transita livremente entre o introspectivo e o sombrio, mas que, ainda, não é possuinte de uma camada dramática. Surpreendentemente, o que acontece é a fluidez para um ambiente manso, fresco e de temperatura aconchegantemente morna. Delicada em sua máxima essência, é interessante perceber como o teclado, ao reproduzir o sonar do hammond, consegue pincelar o psicodélico de maneira leve e sutil sem interferir na serenidade estética até então desenvolvida. Promovendo a construção imagética de uma cenografia nascente em que a luminosidade do sol invade a cozinha por entre as janelas viradas ao horizonte, Falsa Visão rompe esse conforto etéreo ao introduzir o drama de maneira prematuramente visceral perante a maneira com que Natália interpreta o enredo lírico. Inclusive, é nele que o espectador consegue identificar, além da busca e a aquisição do torpor, certo quê de agonia suavizada pela momentânea fuga da realidade. Não é de se espantar, portanto, que, por mais que a personagem lírica tente mostrar uma aparência de normalidade e equilíbrio, as entrelinhas de suas atitudes mostram uma profunda vulnerabilidade associada a uma densa instabilidade emocional.
O violão se apresenta de maneira solitária entre frases curtas. Secas. Súbitas. Apesar de seu inquestionável frescor, ele não esconde sua postura introspectiva e pensante. Um pensar que deixa a mente divagar longe e os olhos, fixos em um horizonte sem limites, viaja pelo inconsciente. Pelas memórias a uma velocidade incalculável e imparável. Delicada e intimista, a faixa se constrói diante de um cenário minimalista e melodicamente monossilábico de forma a constatar, simultaneamente, a falta de propósito, motivação e, mesmo, foco. Felizmente, assim que o primeiro verso se anuncia, a canção parece encontrar seu fluxo, ainda que mantendo sua unilateralidade melódica. Buscando uma espécie de autoconvencimento de ter alcançado a percepção de um caminho, uma ideia, um vislumbre pertinente a ser seguido, a personagem de Do Lado Certo questiona o lugar em que se encontra, seu estado de espírito. Sua lucidez. Diante de uma postura soturna pegajosa, ela admite não encontrar, para si, esperança. Admite não encontrar leveza e ter, na dor, a única forma de conforto.
Imenso Nada pode ser um título autoexplicativo, assim como um caminho de infindáveis interpretações. Ainda assim, algo é unânime, inquestionável. Invariável. A ideia de vazio, de solidão e de uma prematura agonia está completamente associada com a percepção de um pedido de ajuda que grita de dentro de um peito oco de felicidade, mas cheio de sentimentos carniceiros que consomem toda a vivacidade de uma alma, agora, opaca. Monocromática. Sem brilho.
Às vezes, caminhar pelo inconsciente precisa de coragem, ousadia. Mas se optar por fazer essa aventura, é, inclusive, necessária a aquisição de uma sagacidade madura que permita ao indivíduo o vislumbre consciente de cada uma de suas próprias fraquezas, vulnerabilidades e carências. Não existe um único personagem no álbum, mas cada um dos caracteres apresentados se nutrem de uma mesma energia e de mesmas emoções.
A melancolia, o soturno, o torpor, o drama e uma visceralidade por vezes imensurável moldam o interior dos personagens presente nas narrativas líricas de cada uma das 11 faixas que compõem o material. E em cada enredo, o ouvinte se depara não apenas com cenários dramatúrgicos teatrais, mas com poemas rígidos em suas demonstrações sensoriais.
Repleto de figuras de linguagem que vão desde metáforas até momentos em que cacofonias, sons homófonos e diversos tipos de rima regem o intuito de capturar a atenção do espectador, o álbum narra a busca pelo bem-estar, mas sem se amedrontar na exposição das cicatrizes que poucos são capazes de, de fato, enxergar. Eis que para educar o ouvinte para expandir os sentidos e lhes permitir ao menos breves elucidações de algo mais profundo, uma gama de sonoridades foi empregada.
Diante de Imenso Nada, o Continue optou por fundir hardcore melódico, rock alternativo, psicodelia, blues, soft rock, forró, lo-fi e jazz, mas tudo sob uma paisagem soturna. Resultado capaz de ser percebido graças à atuação de Gabriel Zander na engenharia de mixagem, esse clima energético acompanha o ouvinte do começo ao fim do material.
Conseguindo apresentar faixas bem equilibradas, em que cada instrumento consegue ser percebido individualmente, mas, também, em coletividade, o profissional peca em não alcançar esse mesmo feito no álbum como um todo. Ainda assim, ele foi capaz de imprimir todas as referências que influenciaram e influenciam o som da banda ao mesmo tempo que enaltece a aquisição de originalidade.
Com mais proeminência, Charlie Brown Jr. e NX Zero são nomes mais marcantes dentro da paisagem sonora criada pelo Continue. Porém, ao aprofundar o leque, outros nomes surgem e esclarecem o viés músico-editorial do grupo. Supercombo, Clarice Falcão, Pitty e Mariana Camelo são outros nomes que fecham a receita. Tudo misturado em um caldeirão que, felizmente, surtiu em um escopo original e, portanto, autêntico.
Do lado da produção, Marcus Ariosa, que também contribuiu ativamente na criação sonora ao ministrar as guitarra do escopo instrumental, as quais, hoje, contam com Rafael Fernandes e Alê Kaimer para lhes dar vida, soube criar um elo rígido entre as canções, mesmo Imenso Nada não sendo um material conceitual. A partir de seu comando, a busca por ajuda e a ilustração da fragilidade do ser humano foram muito bem salientadas por entre as energias viscerais exploradas nas composições.
Fechando o escopo técnico, vem a arte de capa. Assinada por Fernandes, ela não apenas escancara, como torna autoexplicativa toda a composição central do álbum. Trazendo a sombra de um indivíduo de frente para um olho aberto e atento, o autor, por meio de uma construção impressionista, captura a ideia do indivíduo não apenas vivendo, mas conseguindo observar, nítida e conscientemente, a sua verdadeira origem emocional. É assim que o grupo defende a ideia do autoconhecimento.
Lançado em 07 de agosto de 2025 de maneira independente, Imenso Nada é um disco que expõe a fragilidade e a vulnerabilidade humana. Um álbum que coloca, na distância de um toque, a verdade de que a mente comanda o ser humano desde suas ações à forma como vive e sente cada emoção. Aqui, o Continue apresenta um grito seco, rouco. Um grito que, para os que dominam um mínimo de sensibilidade, é o suficiente para identificar um pedido de ajuda na tentativa de se reerguer e voltar a enxergar a luz onde, antes, era apenas uma manipuladora e aconchegante sombra.

