Rip Gerber - Mister Happy

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É interessante perceber como a delicadeza se funde à sensualidade. Enquanto parece que a canção está em um processo de despertar espreguiçante, a bateria assume as rédeas do instrumental através de seu chimbal sincopado pronunciado de forma repicada. No entanto, é inevitável o fato de que, a guitarra em companhia com o groove do baixo também auxiliam na aquisição de uma atmosfera swingada, mas sem qualquer sinal de uma essência necessariamente sexual.


Encorpada e fresca, a canção se permite crescer em estrutura com a entrada do piano. Através dele, não apenas é possível de se identificar uma nuance doce, mas, também, a harmonia começa a ter um embasamento mais firme. No momento em que Rip Gerber entra em cena, o que acontece não muito depois, a obra é agraciada por uma sutileza extra enquanto o instrumental flui através de uma estrutura linear.


Ainda assim, graças à cadência lírica, a canção não tem diminuída sua aptidão de contágio e, portanto, segue com uma silhueta sonora bastante sedutora. No entanto, através de certos rompantes interpretativos, é possível de se perceber que a obra vai garantindo para si uma dramaticidade surpreendentemente pungente, mesmo com o teclado tentando suavizá-la de algum modo.


O que chama a atenção do espectador é que, conforme a obra entra em um crescendo, a energia vai ficando cada vez mais densa e angustiante graças à intensidade adquirida por Gerber através de sua interpretação verbal. No que tange o viés de intensidade, ele atinge seu apogeu assim que a composição atinge seu refrão, algo que, surpreendente e propositadamente, acontece em um momento em que o ouvinte quase se conforma com o torpor estipulado pela linearidade estrutural.


Durante seu ápice sonoro-narrativo, portanto, a canção se torna explosiva e coloca sua intensidade visceral, além de seu viés dramático no máximo de sua experiência extrassensorial. Através dela, Mister Happy extravasa toda a sua agonia, sua angústia, seu desespero e seu desalento de uma maneira tão pungente que chega a convalescer o espectador. 


Equilibrada em todos os seus aspectos técnicos, indo desde a melodia até o ritmo, Mister Happy evidencia, enfim, a natureza de seu enredo lírico. Inspirado na figura de Erik, um amigo de Gerber, aqui trazido sob a persona de um homem de natureza incendiária, o lirismo reflete sobre a fragilidade da vida, enquanto dialoga, de maneira enfática, sobre perda, esperança e uma necessidade por um senso de propósito. Uma obra lancinantemente rascante.

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Sobre o crítico musical

Diego Pinheiro

Quase que despretensiosamente, começou a escrever críticas sobre músicas. 


Apaixonado e estudioso do Rock, transita pelos diversos gêneros musicais com muita versatilidade.


Requisitado por grandes gravadoras como Warner Music, Som Livre e Sony Music, Diego Pinheiro também iniciou carreira internacional escrevendo sobre bandas estrangeiras.