Virgulados - Destinos (Ato 2)

Nota do Público 5 (1 Votos)

Quatro meses após o anúncio de O Trem De Belo Jardim (Ato 1), o Virgulados surpreende sua base de fãs ao lançar Destinos (Ato 2). Novo EP serve como uma segunda etapa rumo ao lançamento do novo álbum do grupo. Para isso, porém, ainda resta uma última fatia a ser cuidadosamente destacada em breve.


A guitarra de Eduardo Albuquerque surge entre a estridência e a doçura perante o despertar da composição de forma a esboçar ligeiras inclinações com a estrutura do baião em sua aparência. Esboçando uma delicadeza nítida, mas um tanto embrionária no que tange a sua postura, o instrumento é rapidamente acompanhado por uma dupla instrumental que forma a base sonora da composição. De aparência opaca, quase como se fosse propositadamente onipresente, a bateria de Heligeison Feitosa e o baixo de Gledson Lamartine constroem uma atmosfera que leva o ouvinte a vivenciar não apenas o introspectivo, mas, essencialmente, o torpor. Perante essa sensorialidade, o ouvinte permite se entregar ao swing instaurado pela singeleza elaborada entre a linha lírica ofertada por David Biriguy, com seu sotaque deliciosamente envolvente proveniente de Pernambuco, e a nova performance da guitarra. Permitindo o vislumbre de um instrumental sincopado, agora em sua forma completa, essa ambiência liberta o espectador para viver um frescor de nuances curiosamente transcendentais. Introspectiva, dramática e amorfinante, a faixa-título reflete a ideia da fragilidade e da vulnerabilidade não apenas em relação ao destino, mas, essencialmente, em relação à própria ambição apresentada pelo personagem-lírico, evidenciando uma ambivalência entre o medo e o desejo. Ainda assim, diante da intensidade da vida, às vezes o impensado fala mais alto, e o que se tem é um alicerce que, de início, se apresenta de forma desconfortável. Mas é esse mesmo desconforto que faz o indivíduo crescer, amadurecer. No cerne da mensagem lírica, a faixa-título, que conta com a participação de Giovani Cidreira, simplesmente presa pelo crescimento, mas sem que se perca a essência, a delicadeza e a sutileza que moldam o coração do comportamento compassivo do ser humano.


Aqui, a canção surpreende desde seu início imediato por levar o ouvinte a dialogar com um universo sonoro mais metalizado. Pela maneira com que a guitarra se apresenta, com sua distorção beirando um soturno setentista, a melodia acaba apresentando influências despropositadas de nomes como Jethro Tull e resquícios de Led Zeppelin em sua aparência, afinal, muito se percebe de uma ligeira mescla entre hard rock e folk. No entanto, o caminhar da composição leva o espectador para um ambiente de aconchegante brandura em que a própria guitarra assume um comportamento mais sereno, gentil e educado. Ainda assim, é importante salientar que, diante dessa nova paisagem sônica, a faixa acaba sendo agraciada por curiosas inclinações melancólicas que, invariavelmente, fazem com que o ouvinte reflita sobre a existência de tais estímulos. Felizmente, tudo começa a ficar mais claro e nítido ao despertar do enredo lírico. Nele, a faixa se envereda por uma audaciosa seriedade perante a forma com que Biriguy vive cada palavra proferida. Inclusive, ao lado desse toque sensorial mais sisudo existe uma densidade quase palpável por meio da levada rítmica assumida pela bateria. Mesmo que delicada e mansa, ela traz consigo muito mais do que um simples torpor. Traz o lamento, a reflexão. A desesperança. Um estado quase letárgico que muito se associa à dramática e, acima de tudo, pensante narrativa de O Leite Derramou. Isso porque, com a faixa, o Virgulados propõe um diálogo importante sobre o tempo e a relação do ser humano para com ele. Sua fragilidade, sua vulnerabilidade e sua intensa - e implacável - imprevisibilidade o tornam um grande inimigo na atualidade. E a história de João, contada através da presente composição sob um tom melancólico petrificante, mostra o quão fugaz pode ser a vida.


O nordeste chega em peso durante a introdução da presente composição. Em especial, isso acontece por conta do toque tilintante e levemente opaco do triângulo permeando o despertar da paisagem rítmica. Eis então que, no instante do despertar do escopo lírico, uma mistura se percebe a partir do andamento adotado pela bateria. Ao mesmo tempo, pela natureza de seu compasso, ela oferece a percepção do forró, mas, por outro lado, nuances ligeiras de piseiro também são percebidas em razão de sua similaridade com a batida padrão do pancadão carioca. Diante disso, o lirismo vai se enunciado de uma maneira ecoante que traz consigo a ideia de algo folclórico e fantasioso. A narrativa de uma lenda. Para dar vida a esse cenário fantasioso, a guitarra adota uma melodia aguda e levemente aveludada perante um compasso swingado; e o baixo, por sua vez, fornece a consistência que dá, à canção, a firmeza ideal para o seu diálogo sonoro. Com leves nuances de crueza, estética, Vem De Oyá não é apenas uma canção. Ou melhor, uma simples canção. Eis aqui um produto que funde crenças ao trazer termos diretamente retirados do candomblé. Oyá, ou Iansã, a Deusa dos Ventos, aqui prontamente reverenciada em sua máxima forma e potência. Oyó, podendo ser seu sinônimo, é, também, uma referência direta ao antigo reino de iorubá, terra que hoje compreende a Nigéria. A partir daí, o que o Virgulados fez foi trazer todo esse contexto do candomblé para auxiliar na construção de metáforas em relação à aquisição de determinação e resiliência, mas também - e principalmente - a salientar a força da fé perante o destino.

 

O segundo ato dessa série de pequenos lançamentos propostos pelo Virgulados traz consigo ainda mais identidade, fortalecendo e dando ainda mais embasamento à paisagem sônica ofertada em O Trem De Belo Jardim. Em Destinos, portanto, o grupo se apoiou ainda mais em suas raízes culturais, aqui abrangendo música e religião. 


Contudo, é inegável que o assunto principal da narrativa desse novo EP é o amadurecimento. O crescimento. Presente em dois dos três títulos do presente produto, essa temática é explorada tanto pela ótica da essência do indivíduo, ou seja, da resiliência, quanto pelo olhar da melancolia. E isso acontece porque, no segundo caso, a maturidade está diretamente associada com o tempo, esse monstro que rouba as horas, os segundos. Esse ser trevoso que domina a vida de maneira sorrateira.


Do lado estético-estrutural, a beleza está na manutenção de suas raízes rítmicas. Sim, é verdade que, aqui, o Virgulados apresenta suas referências metalizadas, mas não se esquecem da essência, da sua origem. Não à toa que empregam elementos do nordeste em suas narrativas sonoras e apresentam a sinergia entre o regionalismo e o global. Do hard rock folkeado ao misto de baião e piseiro forrozeado. Tudo muito bem sintetizado por Benke Ferraz diante do trabalho da produção; e por Djalma Rodrigues, que sintetizou todo esse universo em um som novamente maduro que mostra a identidade do grupo. 


Fechando o escopo técnico, vem a arte de capa. Novamente assinada por Anynha Portilla e Soraya Feitoza, ela bebe da mesma inspiração que deu vida ao desenho do encarte de O Trem De Belo Jardim. A grafia do nome ‘Virgulados’ remete ao xaxado, assim como o tom avermelhado da roupa dos integrantes chega a remeter a caatinga e sua aridez característica. Por outro lado, a pose dos músicos e suas feições dão a ideia de algo descontraído e leve, o que nem sempre é correspondido, uma vez que os conteúdos líricos pedem pela reflexão. Pelo pensar.


Lançado em 08 de novembro de 2025 de maneira independente, Destinos é um EP sincopado e intenso. Intenso pelas suas roupagens sonoras e, também, pelas suas propostas líricas. Pode até parecer que seja um material leve, afinal, o nordeste e sua malemolência característica são, aqui, muito bem representados. Mas o Virgulados pede maturidade, consciência. Aqui, a reflexão domina e a consciência tanto em relação à ideia de origem quanto à noção do imprevisível impera.

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Sobre o crítico musical

Diego Pinheiro

Quase que despretensiosamente, começou a escrever críticas sobre músicas. 


Apaixonado e estudioso do Rock, transita pelos diversos gêneros musicais com muita versatilidade.


Requisitado por grandes gravadoras como Warner Music, Som Livre e Sony Music, Diego Pinheiro também iniciou carreira internacional escrevendo sobre bandas estrangeiras.