Alex Sant'Anna - Encruzilhada

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O ponto de partida foi uma música composta em novembro de 2020 durante a inscrição para um edital da Lei Aldir Blanc. Na busca para a história a ser contada no sucessor de Baião Amargo, Alex Sant’Anna fez com que a música Encruzilhada não apenas fosse o nome de sua nova empreitada, como também fosse a base do enredo a ser contado. Assim nasceu Encruzilhada.


Um amanhecer ensolarado e nordestino se observa no horizonte a partir dos tilintares do agogô de Betinho Caixa D’Água se sobressaindo de uma base rítmica amplamente tropical. De súbito, o que antes era protagonismo sonoro passa a assumir a função de coadjuvante quando o sintetizador de Leo Airplane assume a superfície rítmica trazendo consigo notas de um suspense árabe entorpecente. Eis que uma voz abraça essa conjuntura com um timbre intermediário de repentes agudos que muito remete àquele de Djavan. Depois de balbuciares onomatopeicos, Alex Sant’Anna enfim começa a compor a trilha lírica de Andarilho, uma narrativa de um eu-lírico que convive diariamente com a força do destino e com a dualidade entre perda e esperança. Um personagem que lida constantemente com a força da fé. Dramática e ao mesmo tempo embriagante, Andarilho é uma canção em que Sant’Anna ainda brinca com jogos de palavras de que proporcionam diferentes tipos de rima e desmistifica a falsa ideia demoniada que algumas religiões imputam sobre a figura de Exu e o traz como um mensageiro da proteção. Quando o ouvinte não mais espera surpresas, a canção assume uma crescente imponente que, a partir do violino de Gledson Souza, mistura elementos do folk que são seguidos por um encorpamento vocal proporcionado pela companhia de Quésia Sonza no backing vocal.


O tilintar agudo do agogô puxa a introdução com seus sonares agudos, mas a dramaticidade e tensão das notas graves do piano o levam para um caminho contrário daquele sopro de leveza e swing que destilou no início de Andarilho. Curiosamente, por leves e rápidos instantes a melodia que se construiu pela união de algumas das teclas do piano fazem com que o ouvinte recicle o swing funkeado tocado pelo tecladista Fraser T. Smith em Fuck You, single de CeeLo Green. De volta à realidade, Sant’Anna acaba construindo uma sonoridade que, por mais que tenha um groove impresso pelo encorpado riff do baixo de Rafael Ramos, é regada em melancolia. A guitarra de Abraão Gonzaga tenta romper esses lapsos de energia baixa ao inserir linhas rítmicas calcadas em um flerte com a estética do manguebeat. Eis então que sorrisos são vivenciados e sentidos amanhecerem ao passo que o lirismo introduz um enredo sobre o ato do nascimento. Um ato que pode ser regido tanto pela felicidade embriagante e frouxa quanto de um misto de alegria e tristeza. Um parto pode ao mesmo tempo dar luz a uma vida quanto cessar a luminosidade de outra. Cabô Tristeza é uma canção que, com a apropriação de diversos termos e entidades candomblezeiras, a forma como a felicidade e a tristeza andam juntas e são necessárias para o amadurecimento da alma. É uma música de vida e de morte. Uma música sobre destino que tem arranjos assinados por Ubiratan Marques e backings pontuais de Diane Veloso que servem para dar ênfase em determinados versos de impacto.


Com o colorido e contagiante baião, a base introdutória da canção vai ganhando veludo e acidez a partir da sonoridade entregue pelas notas do teclado enquanto os riffs da guitarra lançam luz para um ameno flerte com a estética do axé. Ao mesmo tempo, é possível notar uma intrigante fusão entre pagode e samba que proporciona uma malemolência esteticamente saliente que envolve e contagia o ouvinte. Preciso mencionar, porém, que é curioso como Alex Sant’Anna consegue, seguidamente, apresentar diferentes pontos de vista sobre o tema destino. Enquanto que em Cabô Tristeza ele fosse como um personagem coadjuvante responsável por decidir entre uma situação ou outra, sendo uma regida pela alegria e a outra pela mescla de tristeza e alegria, em A Comunidade Das Águas ele vem como um metafórico sinônimo às ideias de fluidez, versatilidade e da persistência simbolizando a objetividade. Com auxílio da voz firme e precisa de Rayra Mayara acompanhada do veludo quase onipresente dos backings de Mayra Félix, quem possui um timbre harmônica e homogeneamente macio que se assemelha àquele de Vanessa Da Mata, a canção ganha novos e frescos tons a partir da segunda estrofe.


Existe uma alegria sedutora e, de certa forma reenergizante no ar. Algo que Onde Mora Nossa Paz alcança graças ao riff da guitarra que consegue remeter à sonoridade havaiana de forma a se mostrar amaciada e confortável. Já se posicionando em um duo com Taia, Sant’Anna apresenta ao ouvinte um enredo lírico que narra o árduo processo do encontro do autoconhecimento ao mesmo tempo que traz a vida como sendo a maior escola para aprender a lidar com as mais densas, profundas, dicotômicas e distintas emoções. É como diz Taia em um refrão guiado pela cadência tilintante do triângulo, “a vida não espera você ficar pronta, a gente segue pra onde o peito aponta”.


Apesar de banhado por uma alegria extasiante em Onde Mora Nossa Paz, o ouvinte se vê agora em um ambiente governado pela melancolia trazida pelo riff lento e propositadamente triste da guitarra. É então que um elemento surge proporcionando uma mistura de sentimentos que vai do aconchego, proteção e compreensão. Eis o veludo tão característico do piano rhodes aqui impresso por Zé Manoel que acompanha um enredo lírico de uma simplicidade sem precedentes guiado pelo compasso sedutor, macio e cativante do baião trazido pelo groove da bateria de Danyel Nanume. Dividindo espaço com Sant’Anna também nos vocais, o que Manoel ajuda a entregar é uma narrativa imagética e emocional que representa bem o anseio de grande parte do povo nordestino. A chuva é um dos maiores presentes que podem ganhar, mas aqui, em Fim De Mundo, ela evidencia os sentimentos de insegurança e desproteção mascarados por uma face séria, autoconfiante e compreensível. Uma face que, no final, é abraçada pela esperança. Definitivamente, Fim De Mundo é um importante single de Encruzilhada.


Uma sonoridade de um suspense intrigante se posta afrente dos olhos do ouvinte. Por leves e repentinos momentos, a melodia ainda embrionária da canção remete à sonoridade construída em Mais Ninguém, single da Banda do Mar, mas a acidez compassada do baixo faz fluir esse devaneio como em um piscar de olhos. Através de uma roupagem indie, ao lado do duo agridoce formado entre Diane Veloso e Ramos, Sant’Anna discute a percepção de ódio recaída sobre o Carnaval por conta de uma imaginária culpa e senso de falta de responsabilidade dessa festividade no que diz respeito à disseminação da Covid-19 no mundo, mas especialmente, claro, no Brasil. Ao mesmo tempo é o próprio Carnaval uma alusão metafórica ao retrocesso social perante os sentimentos de intolerância. Isso é Anti Carnaval.


Com um blues rock contagiante regado à presença macia e swingada da guitarra elétrica de Rafael Costello e do encorpado e igualmente swingado riff do baixo de Luno Torres, a voz grave e rasgada de um novo integrante é quem apresenta uma nova história musicada ao espectador. Jr. Black traz mais uma história em cuja moral é, assim como em Onde Mora Nossa Paz e Fim De Mundo, a busca do autoconhecimento. Exaltando a simplicidade a partir de palavras ditas de maneira extremamente coloquial, tanto Black quanto Sant’Anna discorre sobre a vida de Zé, um homem que recai às substâncias entorpecentes na ânsia não só de se encontrar, mas de recuperar a fé em si próprio. Em Sacuda, o personagem Zé ainda destaca sentimentos atuais que tangem o negacionismo ao mesmo tempo em que critica a cegueira social perante os menos afortunados. A realidade urbana como um quadro repleto de paisagens normais anormais. De fato, um single de consciência social importante que é apresentado por Encruzilhada.


De maneira simples, mas já com uma cadência interessante, a bateria puxa o instrumental introdutório. Com um swing evidente, mas ainda no processo de despertar, é possível notar uma mescla de cores quentes e pasteis nessa melodia a se formar. A batida em sua essência é construída trazendo elementos do pancadão assim como do samba e seu frescor, que são acompanhados de uma guitarra de afinação amena que imprime pitadas de uma sonoridade indie à canção. É então que, com o encorpado e repentino despertar do baixo, o primeiro verso tem seu início e recebe a presença da malemolência adocicada do cavaco da já prestativa Rayra Mayara. Com a mesma função do baixo, o sopro agudo e de uma estridência típica do trompete de André Lima se posiciona como a ponte entre o pré-refrão e o refrão, momento em que o calor e a maresia tropicais abraçam a paisagem paradisíaca que serve de cenário para Aprendendo A Sambar, uma música que trata sobre simplicidade, honestidade e, por que não, bondade. Trazendo a dança da capoeira como o artifício do ensinamento e do amadurecimento do eu-lírico, a canção ainda possui a presença do saxofone de Mário Augusto que apresenta o teor melancólico-dramático sobre a realidade vivida pelo personagem.


Ecoante e crescente como a luz do Sol em um amanhecer de verão. A voz de Sant’Anna vai aumentando sua presença conforme vai trazendo os primeiros versos cantados da nova história a ser apresentada ao ouvinte. Sob a base rítmica do baião, ela vai trazendo uma maciez contagiante que é, na introdução, abraçada por uma guitarra em cujo efeito imprime noções psicodélicas ao enredo. Com a contagem do tempo sendo de responsabilidade do triângulo, o primeiro verso já vem com uma novidade. Aqui quem empresta a voz é Rodrigo Maranhão, quem assume a função de contador de parte dessa que é mais uma poesia nordestino-sertaneja. Difícil é a tarefa do ouvinte em não se comover com Enquanto Houver Razão, pois ela é de um sofrimento que, de tão profundo e contagiante, faz com que o ouvinte de fato se compadeça e até queira oferecer uma mão, um abraço amigo para confortar o personagem lírico, o qual se vê imerso em uma intensa falta de pertencimento e de afeto. Ao mesmo tempo, ele emociona ao expor sua capacidade de força e estabilidade emocional, que o proporciona seguir com predestinação e perseverança na busca por aquilo que vai lhe fazer ter algo para se apoiar, chamar de seu e o mais importante, se sentir importante e querido.


Existe uma conjuntura de elementos robusta na melodia introdutória. Enquanto uma noção mântrica e astral e apresentada pela sonoridade imputada pelo sintetizador, o Fender Rhodes traz uma maciez adocicada em compasso swingado que abraça a estridência sutilmente ácida da guitarra de Julico, quem imprime temperaturas mais quentes à base rítmica que, assim como em Enquanto Houver Razão, é calcada no baião. Trazendo uma voz de timbre semelhante ao dos atores Tadeu Mello e Fred Mascarenhas e em que a agudez é o principal ponto de identificação, Julico auxilia Sant’Anna na narrativa de um capítulo de é regado de um sentimento patriótico saliente. O que deixa Ponta Do Mutá ainda mais marcante é o refrão cantado a quatro vozes, sendo que unidas a Julico e Sant’Anna estão Diane Veloso e Mayra Felix, e a estrutura lírico-petica que ela apresenta. Esse quesito torna nítida a influência que o poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, teve sobre a dupla de compositores da faixa. Afinal, além de exortarem um amor latente pela terra, ela traz uma atualidade severa que se baseia na ausência do sentimento de pertencimento regido pela abrupta falta de esperança que vem sido arada a partir do Governo Bolsonaro. Ponta Do Mutá é uma canção de protesto que certamente está, ao lado de Onde Mora Nossa Paz e Sacuda, no time de singles de Encruzilhada.


O beat eletrônico traz em meio à contagem do tempo feita pela caixa um som opaco semelhante ao da moringa. O groove swingado do baixo, por sua vez, imprime à cadência rítmica pinceladas do forró que dão passagem para o conteúdo mais simples de todo o álbum, mas também aquele que, guardadas certas proporções, é como Ponta Do Mutá. É verdade que Passarada não oferece notas de protesto, mas assim como a canção anterior ela vem recheada de um patriotismo trazido por meio da citação de apenas algumas aves encontradas na vasta fauna brasileira.


O sintetizador traz calmaria e a guitarra acompanha essa sensibilidade com seu riff de presença amena. É então que uma voz aveludada e reconfortante entra em cena acompanhada de respingos graves formando uma atmosfera agridoce à melodia ainda em formação. É a presença de Jacque Barroso e Alessandro Dornelos imputando novos ingredientes à receita do disco. Com uma sonoridade modernizada, assim como em Aprendendo A Sambar, a presente faixa traz a fusão da cadência do pancadão com sonoridades que beiram o axé, o manguebeat e o próprio baião. Interessante notar, porém, como mesmo com essa amplitude rítmica existe, escondido para uns, mas escancarado para outros, o maior enredo de protesto de todo Encruzilhada. Tanto Faz não é um levante pura e simplesmente pelos atos do Governo Bolsonaro em si. É um levante focado à forma como o Brasil, a mando de Jair Bolsonaro, vem gerindo a crise pandêmica. “Ninguém liga pra corpos, tanto faz. Passamos dos 500.000, tanto faz. E se não tiver nomes, tanto faz” e “Acima dos 80, tanto faz. Na faixa dos 70, tanto faz. E com excesso de peso, tanto faz” são versos que exemplificam o descaso, o desprezo e o desrespeito para com a sociedade brasileira e para com a saúde pública. Por outro lado, a dupla Jacque e Dornelos, ao lado de Sant’Anna, visa chacoalhar a sociedade e estimular o senso de revolta, de direito, de memória, de valorização. “Nenhum nome será esquecido”, ressalta alerta Sant’Anna com cadência lírica rappeada. “Não escute o desgoverno! A rua ensina!”, é o verso que segue a proposta de contrapor a desinformação. Por fim, o verso “Mas enquanto houver rima haverá o confronto” é o que mostra a força da união e a da consciência de comunidade como um meio de romper a censura, o desserviço e o extremismo. Tanto Faz é mais inquietante que Anti Carnaval e inquestionavelmente ultrapassa Ponta Do Mutá e acaba por assumir o posto de principal música de protesto de Encruzilhada. Um protesto artístico que, assim como fez M Ξ R O S em o ʇ ᴉ ɯ, traz urgência, mas também não esconde o desespero e a angústia pelos atos infames feitos por alguém que deveria cuidar e gerir. Tanto Faz é mais uma faixa que representa todos aqueles que, vacinados contra a infodemia e a desinformação, querem mudança.


Forte, ritmado, swingado, nordestino. Brasileiro. Encruzilhada é um disco que vai muito além de um produto musical. É algo que une música, une poesia, une consciência de mundo, une sabedoria e une patriotismo. Nas mãos de Alex Sant’Anna, o disco se torna um expoente da nova arte brasileira.


Combinando ritmos como baião, manguebeat, rap, pancadão, psicodelia, indie, axé, forró, blues rock, funk e folk, Sant’Anna oferece ao ouvinte um livro. Um livro em que cada capítulo é poesia, um texto repleto de rimas, de simplicidade e de um notável misto de humildade e humanidade.


Difícil não se envolver com a candura de Fim De Mundo, a persistência de Onde Mora Nossa Paz, o sentimento de revolta e incredulidade exposto pela história de Zé em Sacuda ou pelos enredos de Anti Carnaval e Tanto Faz. Difícil não enxergar a beleza a partir da sutileza de lirismos como o de Passarada ou não se comover pela força emocional e ausência de afetos do personagem de Enquanto Houver Razão.


Isso mostra a ampla maestria de Sant’Anna no exercício de composição. Composições essas que foram brilhantemente abraçadas por melodias complexas, mas nada elitizadas, feitas pelo competente time de músicos recrutado para compor a sonorização de Encruzilhada.


Na parte técnica, o disco teve ainda a mixagem de Dudu Prudente, quem proporcionou uma equalização capaz de fazer com que cada sonoridade fosse devidamente degustada pelo ouvinte. Por fim, produção mista entre Airplane e Sant’Anna amarrou toda essa conjuntura ao proporcionar liberdade de criação e uma direção que fez com que cada canção casasse entre si a partir do senso de brasilidade e patriotismo.  


Abraçando toda essa aparelhagem rítmico-melódica está a arte de capa. Feita em união entre Carol Patriarca e Larissa Vieira, ela traz contornos que remetem tanto ao Cangaço quanto a Pernambuco. A grafia de Encruzilhada, feita com base na escrita da pichação, traz, assim como fez BeviMix & Master em Travesti Biológica, um senso de marginalidade que é como o bom senso é visto pelo governo brasileiro atualmente. Por isso, o preto ao fundo comunica uma espécie de luto. Luto por todos aqueles que foram vítimas de uma gestão de crise pandêmica desrespeitosa, desleixada e debochada. Luto por todos aqueles que tentam, mas são calados por uma necessidade de autoafirmação traduzida em extremismo. 


Lançado em 21 de janeiro de 2022 via Badalando Play, Encruzilhada é um disco brasileiro que luta por igualdade e que exala uma consciência de mundo latente. Repleto de humildade e senso de humanidade, ele é a tradução do que o povo brasileiro vive atualmente em um contexto político, social, econômico e cultural: uma encruzilhada em que as saídas são regidas ou por autoritarismo ou por extremismo ou por um senso de autoafirmação presidencial que tenta desesperadamente romper com sentimentos de inferioridade e menosprezo. 

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Sobre o crítico musical

Diego Pinheiro

Quase que despretensiosamente, começou a escrever críticas sobre músicas. 


Apaixonado e estudioso do Rock, transita pelos diversos gêneros musicais com muita versatilidade.


Requisitado por grandes gravadoras como Warner Music, Som Livre e Sony Music, Diego Pinheiro também iniciou carreira internacional escrevendo sobre bandas estrangeiras.